Arquivo do mês: fevereiro 2010

Um estranho no ninho… ops: um estranho no carnaval!

“Quem foi que disse que axé é música de carnaval? Quem foi que decretou que os dias de carnaval são pra se jogar, embebedar, perder a vergonha e agir loucamente? O que foi que aconteceu com esse povo alucinado, que pula, que dança, que grita, que bebe e que briga? Por que o tal do som automotivo faz tanto sucesso? De quem foi a idéia em trazer um DJ pra tomar conta da festa? E ainda mais um DJ que se chama Download? O que se passa na cabeça desse DJ, que faz remixes toscos de músicas do Tiririca e, até mesmo, de músicas gospel? Que músicas são essas: ‘Vale night’ e ‘Eu sou um lobo mau, vou te comer, vou te comer, vou te comer’?” Esse era eu no carnaval de Jussara, cidade onde moram meus pais e irmão, e onde nasci e morei até 5 anos atrás.

“Por que você veio então? Você vem no carnaval pra ficar sentado, de braços cruzados ou coisa parecida? Você vai ficar parado ai mesmo? Você é um chato! Você está analisando tudo, não é? Jornalista é foda! Você é louco, para quê sair de casa então? Cadê a animação, meu filho? Animaçãooo!” Esses eram meus amigos virados todos ao mesmo tempo, com dedos armados a me metralhar de perguntas e julgamentos. Eles tinham alguma razão, confesso, mas nada que me proibisse de curtir o feriado do jeito que me propus a fazer.

Não fui pra festar, tampouco pra carnavalizar. Fui pra descansar e matar a saudade da família, botar o papo em dia e saber das novidades de perto, sem que seja pelo usual telefone ou pelas vias da internet. Fui por essa necessidade, apenas, e o carnaval e a festança estavam fora dela. Agora, só digo uma coisa: que eu me embrenhei no meio da folia nos três dias que lá fiquei, foi verdade. Mas fui com a atitude incoerente de um folião convicto. Fui armado com a minha observação constante e as indagações surgiram todas. Fui pelos amigos, para vê-los, pois sabia que lá estavam. E fui pra certificar que, talvez, não tenho mais pique para agüentar aquela zorra toda, que estava armada na minha frente e que para fazer parte, bastava dar um passo, com latinha de cerveja em punho, cantar o Rebolation e entrar pra turma novamente. Digo novamente, porque todos acabaram ignorando de forma solene o chato (eu) que lá insistia em ficar.

Pois bem, eis que o feriado foi bacana, que eu consegui o tão sonhado descanso, revi todos e, ainda, aconteceram algumas coisas peculiares. Cara, irmão de dezessete anos é fogo, viu! Uma das causas da serenidade, do controle, da observação constante e de tudo o mais é que eu tinha de ficar de olho naquele menino, que descobre tudo a passos largos, numa velocidade descomunal e age como se já fosse dono do próprio nariz. Já é maior que eu. Eu sei que isso não é lá grande mérito, porque não é nada complicado ser maior que minha pessoa, mas nunca pensei que para comprar uma cerveja na cidade que cresci, eu teria de passar pelo constrangimento de ser questionado se sou ou não maior de 18 anos. Eu ri, fiquei com vergonha, teve gente que viu e curtiu com a minha cara, mas tudo bem, era carnaval. Nessas horas o sentido de carnaval é válido. Ajuda-te a escapar de algumas situações.

O saldão de feriado foi o seguinte: nunca havia entrado em uma briga antes. Dessa vez entrei, e tudo pelo tal irmão de dezessete. Fui lá com minha fantasia de Jiraya e salvei todos do bolo humano, que nunca vi maior nem mais melindroso. O salvei primeiro, depois a namorada, tirei a fantasia e depois me vesti de irmão responsável e dono da verdade. Paguei meia dúzia de sapos e falei um monte sem dó do ouvido do coitado. Mas bicho, se eu não estivesse lá o negócio teria sido feio. Povo doido, que não queria sair da briga, queria descontar, bater e partir pra cima. No outro dia ele tomou consciência dos fatos e foi falar que me amava e que eu era legal. Ai ai… Ainda tive de ouvir dos amigos que o episódio foi decisivo para manchar a minha reputação na cidade e que no dia seguinte as manchetes dos programas de rádio e dos jornais locais dariam conta da participação do tal jornalistinha em brigas de rua. Eu mereço mesmo…! Mas isso foi pouco perto da surrealidade que estaria por vir.  

Parte dois do saldão de feriado é que no último dia, prestes a pegar o ônibus de volta pra Goiânia eu tive de soltar e certificar a máxima de que: tem coisas que só Jussara faz por você. Há alguns dias surgiu uma mulher na cidade que é fraca da cabeça, já foi internada em clínicas para loucos, mas que sempre dá um jeito de fugir e voltar à ativa. Ela perambula pelo centro de Jussara sem parar, anda para cima e para baixo, vai nos comércios, pede dinheiro, mexe com os homens, chama todos de gostosos e pergunta se não querem marcar um encontro pra mais tarde.

A tal doidinha loira, que apareceu no último dia de carnaval com o cabelo preto e, portanto, moreníssima, é desconhecida de nome, mas já virou popstar da internet. Sem família, sem casa e pelo jeito sem banheiro pra tomar banho, ela pensa que a fonte da praça central é o lugar perfeito pra amenizar o calor escaldante que faz em Jussara. Só que os detalhes principais são: o despudor, o desprendimento, a atitude rock´n roll, de cinema, que só Tim Burton imaginaria. Vai vendo…

Estou eu passando de carro com alguns amigos em frente a locadora que fica há uns 200 metros da praça, quando um dos que estavam dentro do automóvel alerta: “nusss, olha a doidinha ali e de cabelo preto, ainda!” Meu chegado, você não está entendendo. Sabe o que a cidadã fez? Ergueu o vestido, mostrou os peitos, foi tirando peça por peça, que iam sendo jogadas ao chão e caminhou calmamente até a praça e, claro, o seu banheiro particular: a fonte. “Toda nuuua”, nuazinha da Silva, ela deleitou-se nas águas da piscina e por lá nadou, entrou e saiu, mostrando aos passantes o seu corpo escultural e escandalizando a tudo e todos. Nunca vi nada mais surreal e feito de forma tão homeopática. Foi leve, calmo e tchibuummm: a louca caiu na fonte de peito aberto e braços dados com a felicidade.

Essa não era a primeira vez que ela fazia isso. Já havia feito antes e os adolescentes da cidade gravaram e disponibilizaram o vídeo no youtube, que já foi retirado, claro. Quando lá cheguei, o assunto só era esse e me perguntavam indignados: “Você não conhece a doida da fonte? Como assim? Nunca ouviu falar?” Não fiquei sabendo mesmo e nem acreditei de imediato em tudo que me falavam, mas depois que vi tudo de perto, apenas soltei solenemente: “Eu ainda morro e não vejo tudo nessa vida.”

No mais, abracei pai, mãe, irmão e avós. Repus a energia e repeti o ritual costumeiro, mas voltei com a sensação de que o carnaval serviu para algumas coisas: descobri um lado que, até então, não tinha me dado conta do quão acentuado é: a chatice; salvei meu irmão de dormir com um olho inchado graças a sua inconseqüência juvenil; e vi uma cena digna dos tipos de Felinni. A louca da fonte mais parecia a famosa Saraghina do filme 8 e ½, toda descompromissada, irreverente e chocando a sociedade.  

 

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Optamos pelo Jornalismo, com muito orgulho (ou não!)

Flashes da conversa numa mesa de bar de quatro estudantes de jornalismo prestes a se formarem.

 1ª parte – Apenas dois conversando.

 _ Jornalismo em Goiás é tenso.

_ É verdade! Não penso em investir aqui.

_ Mas você tem de começar de alguma forma. E vai começar onde? Tem que ser aqui.

_ É verdade. Ah, sei lá, vou tentar o programa da Editora Abril por dois anos. Tem o da Folha de São Paulo também. Vai que dá certo.

_ É …

2ª parte – Já com todos os presentes.

 _ Cara, vou formar e sinceramente não sei o que fazer.

_ Nem eu.

_ Nem eu.

_ Muito menos eu.

_ Não consigo imaginar como seria eu com 30 anos.

_ Lá em casa, meu pai enche o saco. Quando estudava pro vestibular, ele dizia que eu tinha de estudar pra algo em que eu seria o patrão e não o empregado.

_ Vamos abrir um jornal? Sério…

_ Mas cara, o que eu falo é tenso: Não consigo imaginar como seria eu com 30 anos.

_ O que vamos fazer da vida?

_ O pior de tudo nessa história é você saber que tem um potencialzinho e que não nasceu pra ser qualquer coisa.

_ Ééé. É verdade.

_ Ah fi, o lance é o crime, o proibido. Isso é que dá dinheiro.

_ Cara, até hoje, tudo que conquistei (quase nada) foi à custa de muito suor e sei que nada vai cair do céu. Tem que ralar!

_ É.

_ É.

_ É verdade.

_ E outra: na boa fi, tem muito cidadão pior que a gente. Temos chances reais de dar certo na vida.

_ Mas cara, sinceramente, eu não vejo solução. Não consigo me imaginar com 30 anos.

_ Já pararam pra pensar: você trintão e ainda morando com os seus pais? É foda!

_ Tomara que o mundo acabe em 2012.

_ É mesmo.

_ Verdade.

 FIM!

 

Não especifiquei quem falou o quê ai, mas só pra constar: o personagem mais otimista SOU EU, apesar de ter desejado o fim do mundo em 2012.

Anotem ai: um dia vocês ouvirão falar de Daniel Mundim, Fernando Vasconcelos, Galtiery Rodrigues e Thiago Rabelo. Todos bem-sucedidos e ricos e felizes…

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