Arquivo do mês: abril 2010

Do fim do dia

Olhou-se no espelho, deu com a mão cheia na própria face e prometeu acordar para a vida, que perdia em lamentação. Nem havia motivo. Melhor: havia. Mas era motivo de agir e não de esperar. Sem o tempo, que vinha apenas no fim do dia, esgotava-se em cumprimentos, comprimentos, consertos, concertos e era o rei por segundos idos,  só para si. Depois, ia a pensar, a divagar e decidir o próximo passo ou ladrilho a ser pisado na calçada. A vida girava assim e quando parava para analisar aquilo que não fosse a obrigatoriedade, mas a notoriedade, chorava. Chorava pela beleza e pelo desespero de viver e ser o que era. 

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Conto sem fim de três anos e meio

No início eram o dono, a esposa grávida e os sonhos do casal. Isso há mais ou menos três anos e meio. O homem, já com seus 30 e poucos anos, fazia planos para o vestibular da Universidade Federal de Goiás (UFG), que ocorreria no próximo mês de novembro. Ele pretendia passar em Direito, curso de alta concorrência e que o obrigava a intercalar as atividades empresariais, de marido e futuro pai com as de um estudante que se engajava em ler sobre tudo o que estava acontecendo naquele ano. Era preciso saúde para agüentar tudo isso.

A esposa já estava no seu quinto mês de gestação. Ela cursava Letras na UFG. Ofegante, não agüentando aquela barriga que crescia em ritmo geométrico, ainda encontrava tempo para ler os textos, fazer trabalhos, atender os clientes do negócio familiar e planejar tudo para a chegada do esperado filho. Aparentava felicidade, prazer e tinha uma paciência descomunal ao dar atenção e conversar com todos que lá chegavam e ficavam a admirar a beleza de sua gravidez

O marido e a mulher tocavam uma locadora de filmes, que freqüentei nos últimos anos. Acompanhei, mesmo que de longe, apenas observando, todo o desenvolvimento da história do casal e do bebê. Lembro, bem, que cheguei a conversar com eles sobre faculdade, dei dicas para o vestibulando ansioso, falamos sobre a universidade e que todo o esforço é recompensado no momento da aprovação.

Eles eram amantes do cinema. Sabiam dar qualquer informação. Pelo número de filmes ali disponíveis e pela qualidade do acervo era possível detectar o quão envolvidos, nesse mundo, eram os dois. Filmes de todas as décadas, antigos, grandes obras, os maiores cineastas, atores, histórias fascinantes, tudo estava ali. Nunca havia ficado sem encontrar o filme que procurava.

O espaço era pequeno e os DVDs ficavam a se espremer nas prateleiras. Chegou uma hora que não deu mais para dividi-lo com as relíquias em VHS e as fitas foram todas levadas para outro local. Eu ficava horas a olhar, pesquisando, vendo capas e lendo sinopses. Boa parte do meu gosto por cinema e dos filmes que vi, dos maiores filmes, deu-se graças a esse lugar. Gostava de ir até lá e nunca ia embora com menos de três na sacola.

Um dia, como que de repente, lá cheguei e a gestante de outrora já estava com o filho nos braços. Apenas olhei e tentei disfarçar a surpresa que me arremeteu. Foquei um olho nos filmes e o outro na criança. Tão pequena, tão prematura e já tão envolvida naquele ambiente. Os clientes fiéis chegavam, cumprimentavam e parabenizavam os pais. Era uma felicidade só e o casal continuava esforçado em manter a micro-empresa. Agora, mais do que nunca. Tinham um filho para criar.

A criança cresceu nos braços da mãe, depois foi para o chão, começou a andar e ficou a perambular, derrubando tudo quanto é vídeo no chão. Os doces do balcão eram, para ela, uma diversão. Adorava abri-los e se lambuzar. Isso quando não os jogava no lixo. O pai ficava bravo, tentava advertir, mas o sorriso de lado era percebido logo depois.

Passou-se o tempo, passou-se a vida e as mudanças vieram. Não perguntei sobre o que havia dado no tal vestibular. Deixei passar. Pela observação, creio que ele não fora aprovado e continuava a investir, portanto, em tempo integral, ao negócio que mantinha. A chegada do filho foi maior que qualquer outro objetivo. A realização era muito grande, mas um dia me veio o choque.

Fui até a locadora numa sexta-feira, lembro bem. Sempre ia nesse dia da semana depois do expediente do trabalho. Ia para garantir a diversão do sábado e do domingo. Pois bem, lá cheguei e notei: balcão novo, televisão nova, prateleiras novas, computador novo, mulher nova e homem com fisionomia nova.

O homem saudável, de mais ou menos 2 anos atrás, cedeu espaço para um homem magérrimo, de feição doentia, com cara de quem estava enfrentando uma grave doença. Cheguei a duvidar se era o mesmo cidadão. Fui lá várias vezes para me certificar e, sim, era o mesmo homem. Se não tive coragem para perguntar sobre o resultado do vestibular, agora é que eu não seria tão inconveniente. Mais uma vez, fiquei restrito à observação e a armazenar os dados na mente. Mas onde estava a sua esposa? A criança? Quem era aquela nova mulher?

Pela maneira como se relacionavam, deu para perceber que os dois formavam um casal e a moça (simpática, sempre sorridente) era, portanto, a nova dona do pedaço. Já o homem, que se definhava com o tempo, cada vez mais magro, aumentava o magnetismo de meus olhos. Não conseguia parar de olhar para aquela situação e ficar a imaginar, tentando achar respostas e conclusões do porquê daquele estado tão deplorável.

A nova mulher, também, sabia tudo de filmes. Procurava sempre alertar os clientes para a chegada das novidades. Atendeu-me sempre com destreza e simpatia. Era cuidadosa, deixava tudo organizado sobre o balcão e aparentava ser carinhosa com o tal homem, que precisava, claramente, de cuidados.

Nunca soube a causa real da magreza do dono da locadora. Nunca soube o motivo do sumiço da mulher e do filho. Nunca soube nem mesmo os seus nomes. O meu eles sabiam e lembravam pela ficha que lá mantive nesses anos todos. Nunca soube, de fato, quem era aquela nova companheira. Só soube, mesmo, que ali acontecia algo um tanto quanto peculiar e que havia muita coisa a ser descoberta.

Hoje, mais uma vez, fui pego de surpresa, mas uma surpresa que, apenas, aumentou a incógnita do caso. Fui até a locadora, desci pela rua feliz da vida, já pensando nos filmes que procuraria. Quando lá cheguei, lá estava a placa: “Todos os filmes a venda!” Porta trancada, móveis retirados, tudo fechado, tudo acabado.

E agora? As respostas tornaram-se mais distantes ainda. Fica, apenas, a imaginação e a adivinhação do que ocorreu. Por que fecharam a locadora? Será que tem alguma coisa a ver com a saúde do dono? O que será que aconteceu? As paredes daquele local, certamente, tem muito o que revelar e eu muito a indagar. Os observei nesses anos todos; surpreendi-me nesses anos todos. Tirei conclusões descabidas, outras nem tanto e só há uma questão que me aflige: Teria o homem morrido?     

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Crônicas do cérebro humano

 

Ontem, a perturbação nem aqui estava. Havia se escondido. Pensava eu que teria ela iniciado sua fase de hibernação, mas não. Agora, faz-se presente e veio presunçosa e certa de seu poder. Já aflige mais em meia-hora do que todo o incômodo causado desde sua origem. É uma lesma que se esfrega, queimando lentamente o sonho e a esperança, que eu acreditava serem infinitos. Temo pelo fim dessa crendice. É o que me mantém e pode não mais existir ao fim do dia. É essa a sensação! Tudo que foi somado e evoluído até o dia de hoje pode ser excluído com facilidade inimaginável. E, certamente, irei eu nessa destruição.

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Crônica para o dia 7 de abril – Dia do Jornalista

“Tudo é queixa e chatice. Pensava ser mais legal ou interessante, mas não. Sou, apenas, um poetinha, jovem, fajuto, míope, pobre e jornalista.”

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Validade

 

O tempo passa

E fico pior

Pior das vistas

Pior das pernas

Pior dos ossos

Pior da saúde

Fico pior

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O tempo passa

E sou pior

Pior para escrever

Pior para falar

Pior para sentir

Pior para amar

Sou pior

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O tempo passa

E estou pior

Pior pessoa

Pior homem

Pior cidadão

Pior amigo

Estou pior

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O tempo passa

E já não nego

Não nego

Que fico, sou e estou pior

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