Arquivo do mês: setembro 2010

Nem sei colocar título nisso, sério

/ fadiga / sufoco / sem ar / sem lugar / mundo gigante / mundo cruel /

Eu estava “LÁ” lendo a parte do JJ no livro Uma Longa Queda do Nick Hornby, quando ela surgiu. Kênia, 9 anos, natural de Inhumas, apareceu de repente, sem deixar rastro de onde teria surgido e pediu: “Moço, você pode me dar um dinheiro para minha mãe comprar leite para minha irmã?” Interrompi a leitura, levantei a cabeça, mirei os olhos nela, raciocinei rápido e só vi ironia na minha frente, nada mais. E foi a pior e mais podre ironia de todas. Fiz um breve interrogatório para saber o mínimo de informações daquela menininha de cabelos loiros, roupas simples, chinelos e pés sujos. Devia ser por causa da vida que levava, pedindo moedas nos semáforos de Goiânia.

A mãe, segundo a menina, possui uma doença que a impede de amamentar a filha recém-nascida. Desempregada, sem marido e com duas crianças para criar, a grande dificuldade para ela é comprar leite para alimentar a mais nova. O “LÁ” citado no início do texto é a praça de alimentação do Shopping Bougainville, em Goiânia. Era por volta das 15h quando o fato ocorreu. A menina escolheu o lugar mais irônico para me dar aquele tapa na cara, aquele soco no estômago. Estava eu em um centro de consumo, onde circula, predominantemente, pessoas de classe alta e, melhor, onde a comida não é barata. Pensei nisso tudo em dois segundos, relacionei o pensamento à situação, tirei umas moedas do bolso (não deu nem dois reais), dei para a menina e ela saiu.

A garota caminhou calma de mesa em mesa, com o mesmo olhar, com o mesmo comportamento, não passava sentimento ou reação alguma. Foi regular em suas sensações, mas despertava nos demais os sentimentos mais diversos e controversos. A segui com os olhos, tentei voltar à leitura, mas foi em vão. Kênia, na verdade, fez surgir em mim um desconforto tamanho e uma inquietude intensa naquele instante. Pensei comigo: “Esse mundo não tem fim para as crueldades. A última crueldade seria o seu próprio fim e isso demorará acontecer, portanto ele seguirá cruel. Mundo cão!” E o pensamento não ficou guardado para mim. A partir da terceira, quarta palavra passei a falar a frase em voz alta. O som ambiente, certamente, impediu os demais de ouvir.

Ela passou em cerca de quatro mesas. O horário, meio da tarde, é vazio no local. Não é aquele movimento de quando acabam as aulas nos colégios próximos. Esse é um horário, aliás, que sempre procuro ir almoçar justamente por causa da tranquilidade. Não tinha muita gente para ela pedir. A mãe aguardava do lado de fora do Shopping. Eu, apesar de ter dado dinheiro para a menina, fiquei com uma sensação ainda mais horrível depois. Acabara de almoçar e pensei: “Será que ela já comeu?” Poderia ter lhe dado comida, oferecido-lhe a opção de escolha e garantir um momento feliz para ela. Eu tinha dinheiro para isso, mas não o fiz.

Graças a Deus apareceu uma alma bondosa para não deixar passar em branco. A garotinha já estava próxima à escada rolante, perto de descer e ir embora do local, quando decidiu passar numa última mesa, que estava ao lado. E decidiu certo. O homem lá sentado se distraía na internet de seu notebook. Aparentemente nada sociável, com olhar fixo na tela do computador, ele deixou a diversão ou trabalho (não sei) de lado, olhou para a menina, fez duas perguntas e pediu para que ela o seguisse. Levantou, andou até o Bob´s e disse a ela: “Escolha aí o que você quer para comer!?” A menina escolheu, ele pagou, falou para ela esperar ali mesmo, que logo ficaria pronto e voltou para a mesa.

Dez minutos depois, Kênia saiu com as sacolas em que estavam a comida e a bebida. Foi em direção à escada rolante onde quase desceu anteriormente e ia embora sem ter a chance de ganhar o almoço. Lá do lado estava novamente o tal homem. Agora, ele já falava ao celular, sorria e conversava alto. Aparentava estar feliz com o diálogo ou com as notícias que recebia pelo telefone. A menina passou por ele, ensaiou parar em sua frente para provavelmente agradecer, mas viu que não seria possível. Ela chegou a fazer o gesto de que iria parar, mas teve o reflexo rápido e ágil de prosseguir. Continuou o seu caminho, desceu as escadas e foi ao encontro da mãe que a esperava do lado de fora. O homem não a viu ir embora. Já ela, com certeza, o viu e guardará na memória o que ele fez por ela.

Depois fiquei rindo da ironia de tudo. Rindo para não chorar, na verdade. Praça de alimentação, classe alta, dinheiro circulando, lendo livros, outros na internet em seus computadores de última geração e de repente surge uma criança e transforma aquilo tudo, graças a sua ternura e representatividade, em algo tão podre, tão medíocre, tão sujo e cruel. É a desigualdade, que quando a gente menos espera bate a nossa porta. É o tipo de coisa que não pede licença para entrar. Ela invade, mostra-se, apresenta-se e achincalha com tudo. Fiquei pensando depois em como serão os próximos almoços da menina Kênia e quem os garantirá. Concluí: neste mundo nada é garantido, nem para aquele que acredita estar seguro. Olho atento e coração aberto!

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Disritmia

… e a suspeita se confirma. Sempre pensei que o problema fosse mais em mim do que nas circunstâncias. Agora vejo. Sim, o problema é em mim, mas não é um problema qualquer. É o problema de sentir a vontade constante de sempre começar do zero. Constrói, desconstrói; coloca, tira; encaixa, desencaixa; conserta, desconserta; vai e volta no meio do caminho; limpa, mas suja, e suja mais e mais. E no fim (que não existe), sempre feliz. Isso é um problemão. Nem sempre será possível, nem sempre poderei, nem sempre terei a opção de escolha. Essa forma de liberdade que cultivo como a mais empolgante é perecível. Isso me faz sentir inapropriado para relacionamentos sérios, para durar muito em empregos, para ficar em um único lugar, para começar projetos, terminá-los e mantê-los. Voltarei sempre para o início, que é o que me motiva de verdade. Começar! Ter uma tela branca a frente, de tamanho infinito, sem fim, sem medidas e poder preenchê-la de novo e de novo e de novo. É isso!

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Street art – Berlin

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Perdeu preiboy (sic)

Era para ser eu

Ao lado e próximo

Era para ser eu

A abraçar e beijar

Era para ser eu

A acalmar e confortar

Era para ser eu

A sorrir junto

Era para ser eu

A admirar de perto

Era para ser eu

A frequentar o mesmo espaço

Era para ser eu

A estar naquele coração,

Mas não, agora é ele.

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Para a posteridade

Animaçaum!

Reparem o quão contagiados estão os colegas ao lado.

Religiaum!

Demóstenes Torres e José Eliton Júnior são atitude, mano. São personalidade. Não se ajoelham mêêsshmo. Nem por um voto a mais.

Melaum!

Rio de Xanêêêiro!

Pegaçaum!

Ontem (5), a parada Gay de Goiânia reuniu mais de 10 mil pessoas. Entre lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e transgêneros, estavam os políticos, claro. E muitos.

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Amenidades (2)

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Preguiça

De Goiás.

De algumas pessoas.

De alguns fatos.

De como funcionam as coisas.

Da Facomb.

De fazer TCC.

De organizar.

De limpar.

De algumas conversas.

Da calma alheia.

Da crendice caduca.

De religião.

De algumas bandas.

De alguns estilos.

Da insistência.

Da perseverança.

Da esperança.

De acreditar.

De pensar que vai mudar.

De apostar.

De concorrências.

De vaidades.

De egos.

De julgamentos.

De imagens criadas.

De amanhã.

Da velocidade.

Do estresse.

Da banalidade.

Do volume alto.

Da política.

Do político goiano.

Do político brasileiro.

De tentar.

De continuar.

De querer ser.

De pensar que vai ser.

De um dia que nunca chega.

De um futuro que não existe.

Da burocracia.

Do conservadorismo.

Do elitismo.

Do auto favorecimento.

Do Brasil.

Oração

Libertai-me ó pai deste pecado capital.

Perdoe-me.

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