Arquivo do mês: abril 2011

“Eu perdi meu filho na escola”

Galtiery Rodrigues / Foto: Ronaldo Henrique

Edna Cândida: "“O fato de ter sido na escola é diferente. Era o último local que eu poderia imaginar."

Mãe pode até perdoar o assassino, mas jamais deixa de lutar por justiça. A dor de perder um filho é imensurável. O coração materno é o único capaz de quantificar o sofrimento. Edna chorou na quinta-feira da semana passada. Chorou e ficou pelo menos três dias chocada, dentro de casa e remoendo o assassinato das 12 crianças dentro da escola de Realengo, no Rio de Janeiro. O filho dela, Kérssio Silva Santos, na época com 17 anos, foi assassinado em 2008 com um tiro no peito e o local foi o mesmo da chacina carioca: um colégio. No caso, o Colégio Estadual Deputado José Luciano, no setor Rio Formoso, região sudoeste de Goiânia. Mais de dois anos depois, diferentemente do exemplo atual, o autor do crime não morreu, tampouco foi preso. Daniel Morais de Jesus continua solto e aguarda o trâmite do processo em liberdade.
Edna Cândida da Silva Santos tem 40 anos e trabalha como cobradora em um escritório jurídico. Mora junto da filha e do genro na mesma casa e no mesmo setor da escola, onde o filho morreu. “Não saio daqui. Não gosto nem de sair de casa. Fico com a sensação de estar deixando o Kérssio para trás. Aqui eu sinto ele.” Ela conta que até para visitar a mãe sente dificuldade. Viajar então, impossível. Prefere ficar quieta em casa. Ainda não está totalmente recuperada, e acredita que nunca ficará. Emociona-se fácil ao relembrar a história, o dia, o último contato, o sorriso e o barulho que ele fazia. A morte das crianças no Rio a fez sentir tudo de novo.
Na quinta-feira (7) saiu cedo para trabalhar e teve uma manhã atribulada, com pouco tempo para pensar em coisas que não fossem os afazeres e sequer acessar a internet ou prestar atenção na televisão. Na hora do almoço pôde respirar aliviada, mas durou pouco tal sensação. O descanso tão esperado cedeu lugar para o choro e o estado de choque imediato ao ver a bomba nos sites de notícia. O dia acabou ali e o fim de semana também. Lágrimas não cansavam de cair, lembranças insistiam em martelar a mente, o mal estar era intenso e a solidão, mesmo na companhia de vários, era onipresente. “Pensei que não fosse agüentar”.
Kérssio faleceu no dia 21 de outubro de 2008. Foi um dia atípico. Na noite anterior havia, na ajuda da mãe, da irmã e da noiva, feito a lista de convidados do próprio casamento, que seria em breve. Amanheceu chovendo, ele não precisou ser acordado pela mãe, como era de praxe. Levantou sozinho, arrumou-se e ficou na porta olhando para o tempo à espera do fim da chuva. Edna nunca o havia levado, muito menos de carro, e nesse dia foi preciso. Na correria, ela acabou esquecendo o celular em casa. Fez o trajeto, o deixou e foi trabalhar. Mais tarde, ela receberia a má notícia de uma das colegas de trabalho. Kérssio faleceu às 11h55.
Foi uma briga entre colegas de sala. Um era o amigo de infância Bruno Camilo Rezende, o outro era Daniel, seis anos mais velho que os garotos. O assassino fazia curso de segurança e já atuava na função. Ele andava armado e ia estudar, inclusive, trajando parte do uniforme de trabalho. Naquela manhã, ele se desentendeu com Bruno e a rixa acabou em discussão no estacionamento da escola. Kérssio entrou para apaziguar os ânimos e tirar o melhor amigo da confusão. Deu no que deu. Ficaram para trás o futuro casamento, a paixão por futebol, carros, o desejo de cursar Administração de Empresas e uma mãe que não teve coragem até hoje de entrar novamente na escola.

BULLYING PODE TAMBÉM TER SIDO A CAUSA DA MORTE
Além do local, a morte de Kérssio tem outras semelhanças em relação à chacina do Rio de Janeiro. Na época, o autor do crime, Daniel Morais, tinha 23 anos, a mesma idade de Wellington Menezes de Oliveira, assassino das 12 crianças em Realengo. Conforme relatos, no dia a dia da escola Daniel era calado, distante, introspectivo, mau humorado e se irritava fácil. Franzino e baixo, os colegas brincavam e sempre o perguntava como uma empresa de segurança era capaz de contratar alguém da estatura e da massa corpórea dele. No grupo dos que caçoavam estavam Eduardo e Bruno, os dois melhores amigos da vítima.
Kérssio era loiro, olhos claros, 1 metro e 89 centímetros de altura, popular, brincalhão, alegre e bem quisto por profissionais e colegas da escola, onde começou a estudar assim que ela foi inaugurada. Na quinta-feira seguinte, dois dias após o ocorrido, ele seria o personagem principal de uma peça de teatro. Papel este, que Daniel teria desejado ocupar, mas foi recusado pela professora responsável.
Uma semana antes, Eduardo, amigo de Kérssio, viajou com Daniel e outros rapazes para passar alguns dias em um rio no interior do Estado. Lá, meio a brincadeiras e chacotas costumeiras, o segurança teria declarado que em breve os colegas de escola passariam a respeitá-lo devidamente. A irmã da vítima, Kélita Cristiny Santos, 23 anos, acredita hoje, depois de se informar, investigar todas as evidências – ela saiu em busca de informações logo após a morte – e ver as motivações do caso do Rio de Janeiro, que Daniel apertou o gatilho com o mesmo pretexto de Wellington Menezes.

ASSASSINO SOLTO, MEDO E DESEJO DE JUSTIÇA
A maior angústia da mãe é saber que o assassino continua solto e o processo permanece sem perspectiva de ser concluído. O caso chegou a ser sentenciado e Daniel teria de cumprir pena de 16 anos em regime fechado. O advogado dele, no entanto, apresentou recurso às 17h do 15º dia após a decisão, ou seja, no último minuto do prazo para recorrer. O juiz Jesseir Coelho de Alcântara, pensando que não receberia nenhum informe, chegou a expedir o mandado de prisão e estava com ele sobre a mesa. A Polícia Civil já estava preparada para executar a captura. Todos foram surpreendidos. A família, mais ainda.
A mãe e a irmã não tomaram conhecimento do teor do documento. Só ficaram sabendo dias depois que Daniel aguardaria o resultado em liberdade, com a justificativa de ser réu primário, possuir endereço fixo na capital e ter atendido a todos os chamados da Justiça. “Tenho medo”, diz Edna. Ele estaria morando no mesmo setor, Residencial Rio Verde, próximo ao Rio Formoso. Em outubro, completam três anos. Se até lá nada for resolvido, a família pretende fazer mobilização em frente ao Fórum.
Edna não aguenta mais esperar e ter de acompanhar a evolução do processo pela internet ou todas as vezes que vai ao Tribunal de Justiça resolver alguma coisa do trabalho. Ela só clama por resolução e deseja ansiosamente cumprir uma promessa: a casa onde mora passou por reforma recentemente e o quarto de Kérssio, depois de dois anos intacto, foi modificado. Parte das roupas dele foi doada, parte não. As peças continuam guardadas e a mãe só irá se desvencilhar delas, quando obtiver resultado satisfatório e tiver a certeza de que a justiça foi feita.

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