Arquivo do mês: abril 2012

Diálogo

 

_ Esse negócio de morte é estranho.

_ Não sei do que se trata.

_ Ué, por quê?

_ Graças a Deus, perdi poucas pessoas. Experimentei pouco a sensação, até então. Não sei direito.

_ Tá, mas isso vai acontecer.

_ Claro, só que eu não fico encanado com isso.

_ Por que?

_ É lógico. Porque vai acontecer e pronto. É inevitável. Não tem pra onde correr ou fugir.

_ Entendo.

_ E tem mais: apegar-se à neurose ou à preocupação é a pior saída.

_ Como assim?

_ Ficar pensando nisso, sabe? Atrapalha.

_ O que?

_ Atrapalha a viver. Depois você morre sem nem ver a vida passar.

_ É. Verdade.

_ Eu mesmo, olhe pra mim!

_ Sim.

_ Não sei muito da morte. Só sei que vai acontecer. E é tendo essa consciência que já sei do que quero morrer.

_ Mas você não pode escolher o motivo da morte.

_ Gente! Você perdeu até a leveza da imaginação. Está vendo? Deixe essas implicações realísticas para lá. Não ajudam em nada.

_ Okay, diz aí então. Quer morrer como, de quê?

_ Quero morrer de tanto viver.  

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