Arquivo do mês: junho 2012

Caso Cachoeira: O maior criminoso é o poder público

Galtiery Rodrigues

Está tudo errado. E Carlinhos Cachoeira, apesar de preferir assim e deitar e rolar nessas condições, evidenciou aos olhos mais atentos a crise política e de valores em que o poder público brasileiro está imerso. No início, lá no dia 29 de fevereiro deste ano, quando a Operação Monte Carlo foi deflagrada pela Polícia Federal, cheguei a admirar o poder de articulação do contraventor, que conseguiu adentrar nas mais diversas esferas, inclusive influenciar processos licitatórios em vários estados. No entanto, não foi tão difícil assim e nem demandou muito esforço da parte dele. O poder público está falido e vulnerável, reforçando a cada dia o status de corrompido e facilmente comprável. Foi isso que tornou possível as peripécias de Carlinhos e sua turma.

Ironicamente, o juiz auxiliar da 11ª Vara Criminal da Justiça Federal em Goiás, Paulo Augusto Moreira Lima, desmembrou o processo, colocando de um lado os agentes públicos envolvidos e aos quais não foi decretada prisão preventiva e, do outro, os integrantes diretos da quadrilha de Cachoeira, que foram detidos. Aos olhos do Código Penal, o que a trupe do bicheiro cometeu é mais grave. Já os servidores podem aguardar em liberdade o julgamento por terem permitido o desenvolvimento do esquema de exploração de jogos de azar, terem alertado a cada operação policial, terem distorcido o papel de funcionários pelo bem social, ignorado a ética, o compromisso com a função e terem se entorpecido de dinheiro propinado, vindo dos cantis e barris da “bebericação” de Cachoeira.

Ora, isso tudo não é crime digno de prisão e punição imediata? Simbolicamente, diria que tais atitudes são mais sérias que o que foi cometido pela quadrilha do contraventor, mas no Brasil elas beiram à cócega de tão comuns. Outro dia, vi pessoas na rua sendo perguntadas por um repórter sobre o que pensam a respeito dessa história toda. A maioria expressou ódio, a princípio surpreendente, em relação a Carlinhos Cachoeira. Muitos o xingaram de nomes vários, dizendo ser ele o culpado de tudo pela situação do País. Amigos, e os políticos que participaram, compactuaram, facilitaram? Não deviam ser eles para e pelo povo? Ainda existe muita ignorância em relação ao fato, mas é admirável, no sentido ruim da coisa, o engajamento despendido na direção contrária.

A evidência do descrédito do poder público é claro num dos principais argumentos para manter Carlinhos preso. Depois de vários habeas corpus protocolados pelos advogados, a ideia essencial de que, com ele solto, o esquema poderia ser todo rearmado, principalmente, com novas infiltrações nas esferas públicas, é a que fundamenta a recusa do pedido pelos desembargadores federais. Vejam bem a situação: a Justiça teme que agentes públicos voltem a ser coagidos por Cachoeira. A crise de valores é notória. Uma única pessoa é considerada perigosa por ser capaz de remontar esquema – esquema este que, segundo delegados, ainda persiste – de exploração de máquinas caça níqueis com a ajuda previsível de servidores do governo municipal, estadual, federal e até da Justiça, como foi comprovado pelas interceptações telefônicas.

Aqui, permito-me o uso das palavras do promotor do Ministério Público de Goiás (MP/GO), Fernando Krebs: “Existem os paraísos fiscais, e o Brasil é um paraíso criminal.” É assustadora a forma banal como os integrantes da quadrilha de Carlinhos veem as acusações feitas a eles, mas mais assustadora ainda é o comportamento indiferente de alguns políticos e servidores públicos, também acusados. O Brasil os faz e os fez assim. Sofrem do ranço da banalidade criminal, aquele, cujo fundamento é: crime pequeno não é crime. E infelizmente a Justiça hierarquiza os delitos, sem contar a permissividade da legislação. No entanto, vale lembrar, diante de tanta distração “oportuna” que crime é crime e quem comete é criminoso.

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