Arquivo do mês: janeiro 2013

Tão

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Às vezes, eu queria ser tanto, e esse tanto é tão pouco, porque são atitudes, à primeira vista, simples, mas muito para mim, que é exatamente o oposto. Eu rezo, peço, diariamente, por mais organização, por mais controle das coisas. Parece tudo tão confuso, tão solto, tão sideral. É muita coisa fora do eixo, e isso incomoda. Tenho ideias, tenho disposições esporádicas e a vontade é constante, mas é uma vontade fraca, covarde, introspectiva e que insiste em não se externar, tornar-se prática. Por exemplo: lembro de que tenho que lavar as roupas, uma coisa simples – na verdade, elas me lembram, porque estão há uma semana jogadas no chão do quarto e, claro, não passam despercebidas -, mas, mesmo sendo a máquina de lavar a responsável pela tarefa, eu as deixo no mesmo lugar, privando-me do mínimo esforço de separá-las e jogá-las no tal eletrodoméstico. Aliás, esforço é uma coisa que sumiu de mim. Há muito, a paixão, o fogo que motivava determinadas atitudes e condutas desapareceu. Isso dói, porque me sinto longe e avesso e reclamão e insatisfeito e tão… tão humano, no sentido das piores consequências dessa condição. Oro, ao meu jeito, em pensamento, na rua, em casa, no quarto, antes de dormir, no ônibus. Sonho sempre, com a ajuda das músicas, que passam pelos fones de ouvido e facilitam a construção, na mente, da imagem de dias melhores, dos sinais de um futuro bom. Quero ser menos o eu de hoje. No caso, quero ser menos o meu lado pior, e melhorar. Sinto que ele está se destacando mais. Tão querer, no entanto, não significa tão ser. A ação está misturada na sinuosidade da confusão mental, nas curvas do pensamento errante e, portanto, perdida. Coitada. Desejo, para mim, estudar corretamente, do jeito a que me propus no início e, na segunda semana, já não cumpria mais as metas estabelecidas. Desejo controlar os gastos, utilizar menos a internet, tão presente, tão dona de mim. Isso me assusta. Desejo falar pouco, pedir perdão quando errar ou magoar, desejo privilegiar o silêncio e não berrar, não rir ironicamente, não caçoar, não ficar opinando sobre tudo. Necessito cuidar mais da saúde, beber socialmente, correr, nadar, andar de bicicleta e patins. Desejo controlar a sinceridade e, talvez, quem sabe, um dia, conseguir ser político nas relações, menos radical, mais solícito e deixar um pouco a acidez de lado. Preciso comprar um relógio, um cinto, um blazer, levar duas camisas e uma calça para arrumar, e sorrir. Desejo amar mais, expressar isso e, ao passo, viver mais eu, a minha vida e cuidar dela. Tudo isso, apesar de tão muito, hoje é tão muito o oposto de mim. Espero, porém, chegar um dia, aqui neste blog, tão meu terapeuta e tão cheio de textos de um parágrafo, todos cuspidos, ilustrações das milhões de fases e escarrados, porque a inspiração não espera, nem avisa, e poder dizer para vocês, meus tão poucos leitores, que eu, essa pessoa tão louca e intensa, conseguiu, enfim, ser tudo que sonhou e realizar do desejo tão mais simples ao tão mais complexo.

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A individualidade tem me assustado, tamanha a presença em minha vida. E o susto não se dá pelos pontos negativos que ela traz, até mesmo porque os positivos são bem atraentes, mas pelas circunstâncias que a formaram em mim. Vê-la e senti-la presente me faz pensar. Melhor: recordar. O passado recente foi generoso. Foi muito em tudo e a característica intensidade deste que vos escreve foi testada, exposta, julgada e, tantas vezes, fruto de análise. Chegou-se ao ponto dos outros saberem mais da minha vida do que eu mesmo. E, nesses outros, estiveram inclusos pessoas diversas, grupos diversos e seres com os quais o contato havia sido mínimo, até então. Mesmo assim, sabiam, souberam, ficaram sabendo por meio de outras vozes. Eles viram a perda da direção, o descontrole do foco, os vários focos simultâneos, os amores e dissabores sucessivos, porque cada um trouxe consigo um remorso posterior, e a vontade latente pelo insuficiente, inexistente e o ilimitado. Enquanto isso, para mim, tudo era vida para ser vivida, e fui. Os coletivos desarmoniosos, as opiniões alheias (algumas involuntárias), a invasão de impressões e os index fingers apontados, todos juntos cansaram e me formaram. Assim, estou. O silêncio do ambiente pessoal, a liberdade da solidão, a companhia agradável dos cômodos, do cheiro e das coisinhas de casa, a desnecessidade do alguém presente, aquele alguém que tantos buscam dia após dia. Isso tem sido prazeroso, uma espécie de oito para quem viveu o oitenta até meses atrás, e o espanto é inevitável.

Rio, sorrio, acho graça.

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