Arquivo do mês: março 2013

Eu não sou ruim

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Não sei se sou bom, até mesmo porque me cobro muito, mas sei que não sou ruim. Desde o colégio, eu era diferente. Não gostava das mesmas coisas, programas ou músicas que a maioria. Sempre gostei de arte, teatro e tudo verdadeiramente criativo, impensado e inovador. Ainda hoje, sou assim. Escolhi ser jornalista e, às vezes, até penso que a profissão me escolheu também. Só que é frágil acreditar em destino, e eu tenho consciência disso. Não confio, procuro tentar, procuro inovar, criar de alguma forma, por amor e por sobrevivência. E aí está a questão, a crise. Não minha, exatamente, mas de quem anda cobrando, e isso me chateia.

No jornalismo, sempre procuro retratar temas que me desafiam, transitar por lugares desconhecidos, trazer o assunto com a abordagem que ninguém pensou ou, mesmo em caso de pauta corriqueira, fazê-la do jeito que eu gosto de fazer: diferente. Isso é meu, e assim eu preciso ser. Vez ou outra isso rende reconhecimento. Com menos de três anos de carreira, diria até que já conquistei muita coisa. Estou dando certo, na medida do possível. Aliás, não me lembro de ter dado errado no trabalho. Só no amor. Mas as pessoas cobram, e isso me chateia.

Entendo que eu alimentei isso. Entendo que os resultados precoces e o talento que muitos viram, desde o princípio, fizeram crer que eu fosse ser algo além do piso salarial. Não, eu sou só mais um jornalista no meio da multidão, e que não me resta outra saída, senão aceitar o piso e sobreviver. Eu não tenho problemas com o piso. Aliás, sim, eu me indigno, o que é natural. No entanto, eu vivo ao meu jeito, continuo criando, sorrindo, economizando e seguindo adiante. Já fui mais impaciente, ansioso por melhoras salariais, louco por dinheiro. Hoje, eu diria que o meu prazer por fazer o que gosto é, sim, o pão e a água de que tanto preciso. Mas tem gente que não entende, e isso me chateia.

E a chateação surge porque eu sempre trabalhei, desde os tempos de cursinho. Sempre briguei pela independência, mesmo que mínima, e guardo a noção de que o dinheiro dos meus pais não é meu. Só eu sei o que já passei para conseguir chegar até o final do mês sem ter que pedir ajuda ao meu pai. Não gosto, não quero. Eu já me cobro isso, faço sem que ninguém precise me orientar. Tenho 25 anos. Deveria estar em melhor situação? Não necessariamente, mas poderia. A profissão que escolhi é difícil, mas por amor a ela, ao meu prazer e, principalmente, em razão da minha consciência incansável, eu tento e farei o possível para melhorar.

Só queria que soubessem disso e que pensassem em tudo o que eu já fui, consegui e sou antes de vir me questionar com algo mais ou menos assim: “O que você está pensando da vida?”

Eu não estou inerte. Estou paciente, diante da dificuldade, mas lutando. E, por último: eu não sou ruim.

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