Arquivo do mês: maio 2013

Pérola tem só 14 anos

Ontem faleceu Kerolly, a menina de 11 anos que tentou salvar o pai, levou um tiro na cabeça e virou notícia em todo o País. E virou notícia, em muito, pelo impacto das imagens gravadas pelas câmeras de segurança da tal pizzaria na Vila Alzira, em Aparecida de Goiânia. A sequência de desespero e valentia da garota é forte, choca qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade e ficará guardada na memória de muita gente, especialmente na de Pérola, a irmã que também estava na cena do crime e que se safou dos disparos feitos pelo comerciante George por uma questão de centímetros.

Pérola viu tudo, desesperou-se tal qual a irmã, tentou buscar por socorro, puxou o braço de um homem que estava próximo, mas este saiu correndo e ela foi atrás, sem saber o que fazer, enquanto o pai estava sob a mira do revólver calibre 38; Pérola gritou, pediu pelo amor de Deus, entrou na frente do atirador, foi sendo puxada pelo pai ao tentar tirá-lo do local, o primeiro tiro foi dado, não atingiu ninguém; Pérola perdeu um dos chinelos, que saiu de seu pé, quase caiu e parou na esquina, onde a irmã voltou à cena e levou o tiro na cabeça que lhe custou a vida 10 dias depois. Pérola testemunhou tudo; Pérola tem só 14 anos.

Nos últimos dias, a jovem garota teve que ser gente grande. Os jornalistas que foram ao Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo) em busca de informações sobre o caso ou mantiveram contato com a família puderam presenciar a situação da menina. Alguns podem ter ido só para conseguir maiores detalhes, cumprirem a pauta e seguirem para a próxima tarefa. Mas outros, com certeza, devem ter notado a vulnerabilidade de Pérola, que ainda se fazia forte para defender o pai, aconselhar-lhe e atender ligações da imprensa, que teve acesso ao número do seu celular. Eu estive lá, falei com ela e me emocionei, porque Pérola tem só 14 anos.

Em primeiro momento, o que me chamou atenção foi o fato de Pérola ter sido, nesses dias, uma espécie de porta-voz da família. Ela apareceu até no Jornal Nacional. Fora isso, ela ainda demonstrou uma maturidade incomum para pessoas da mesma idade ao tentar acalmar o pai, ao conter o choro, ao conseguir raciocinar e passar informações para jornalistas, enquanto a irmã estava sob ameaça de morte cerebral na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hugo. Quando falei com ela, na terça-feira (30), antes do feriado do Dia do Trabalho, o que me saltou aos olhos foi a continuidade do desespero da jovem. Desde o sábado, dia 27 de abril, quando tudo ocorreu, ela não teve paz. 

Entre um choro e o respirar fundo, entre a voz embargada e o desatar dos nós na garganta, Pérola me contava sobre a situação da irmã e sobre a última notícia recebida naquela tarde, que era sobre a piora de Kerolly. Nessa hora, recordo-me, o celular dela tocou. Era a mãe, querendo obter notícias. A menina não conseguiu segurar. Sentou no chão e chorou, com a mãe do outro lado da linha também em prantos. Assim que desligou o telefone, Pérola continuou sentada, olhando vagamente em direção incerta e em silêncio, como que se perguntando ou tentando entender tudo pelo qual estava passando. Afinal, Pérola tem só 14 anos. 

Essa imagem ficará guardada para sempre na minha memória de jovem jornalista. Era eu, um jovem profissional, olhando para uma menina ainda mais jovem, mais vulnerável, de origem humilde e que, por uma questão divina, mantinha-se forte e com o mínimo de discernimento para auxiliar o pai, também inconsolável. Nessa hora, eu só quis abraça-la. Era a ajuda que eu poderia ofertar. No entanto, o pai, que havia se distanciado para dar entrevista para uma rádio da capital, aproximou-se e a pegou pelo braço. Eles entraram de novo no Hospital e eu fiquei do lado de fora.

Confesso não saber lidar direito com essas situações de luto. Fico meio inerte. A rotina de jornalista, apesar de propiciar certa banalidade da dor e das perdas, não me deixa cair nessa errata. O que vejo é feio, é doloroso, é injusto e forte demais para eu tratar com olhar frio ou insensível. Não consigo. Hoje, ao saber da confirmação da morte de Kerolly, pensei logo na Pérola, que é quem fica. Que ela se sinta abraçada, que ela possa ter o mínimo de paz, cresça livre e longe de provações como essa, pela qual passou nos últimos dias, e que a memória, tomada pelas cenas de desespero daquele sábado impiedoso, passe a ser composta por alegrias e sonhos.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized