Juvenais, Franciscas e o amor

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Existem histórias que são obrigatórias. E esta é uma delas. “Deixa só eu vestir uma camisa e ver se ela não está pelada lá dentro”. Menos de um minuto de espera em frente à casa simples do Bairro Cidade Nova, em Aparecida de Goiânia, e ele gritou: “Pode entrar. Pode vir”. Não demorou 10 passos para eu conhecer Francisca, a senhora acamada, que já não fala, não anda, não senta, só se alimenta por sonda, que chora vez ou outra e que tem perto de si e por si um Juvenal. Há 47 anos.

Entrei pelo portão que dá acesso à garagem e à área de serviços, no fundo da casa. Faltou-me traquejo jornalístico para conter o choque diante do tão próximo, tão logo. Ela estava deitada em um sofá, meio coberta, meio não. Respirava com dificuldade e olhou assustada para aquele indivíduo desconhecido. Um “Nossa!” ficou entalado entre a minha língua e os dentes, querendo sair, mas contido por Juvenal, que já ajeitava tudo para me acomodar da melhor forma.

“Aceita café? Quer sentar? Vou pegar uma cadeira”, enquanto entrava, indo até a cozinha para tirar uma das cadeiras que estavam em cima da mesa para que ele pudesse limpar o chão, ainda úmido e cujo cheiro de produto de limpeza era possível sentir. Ele veio lá de dentro com duas. Uma para mim e outra para ele. Sentamos frente a frente, ele segurando a mão da esposa e relatando uma sucessão de acontecimentos que já não eram guardados pela minha memória, tampouco anotados pela caneta que deslizava pelas folhas do bloco de anotações. Mesmo rápida, ela era incapaz de acompanhar tudo aquilo.

A memória do senhor de 65 anos, porém, não falha. Diabético e aposentado por invalidez, em razão da artrose que lhe acometeu bem cedo, o ex-pedreiro contou nos dedos da mão esquerda, repetindo, em seguida, para que eu não perdesse nenhuma informação: “Ela sofreu três AVCs. Um dia 8 de março de 2014, outro dia 13 de agosto de 2014 e o último foi dia 9 de setembro de 2015”. Nesse instante, o olhar vagueou e o meu “Nossa!” finalmente saiu.

Piauiense, crescido no Maranhão, pai de 8 filhos (um morreu vítima de acidente de trânsito), mas todos espalhados pelo mundo ou tomados pelas ocupações cotidianas, Juvenal cultiva a fé solitária de que um dia Francisca voltará a andar. “Eu tenho certeza que isso vai acontecer. Eu rezo todo dia”, confia, hoje, o marido que já chegou a desacreditar na sobrevivência da esposa. No último AVC, ela ficou quatro meses internada na UTI do Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo).

“Temos de tocar a vida até o dia que Deus quiser”, disse em tom professoral, de quem aprendeu, aprende e, por isso, ensina. O tempo de Juvenal, cuja força vem reduzindo com os anos por causa dos problemas de saúde, esgota-se dentro de casa, totalmente voltado para Francisca. Às vezes, ele vai até o portão ver a rua, os moleques e os carros. De alegria resistente e sorriso mais ainda, ele conta tudo com a naturalidade de quem já foi imerso pela rotina de cuidados.

Em determinado momento da nossa conversa, entre perguntas e respostas, a mulher fez um som, como que tentando chamar a atenção. Ele observou as lágrimas. “Não, não chora, não. Não precisa chorar”, disse, pegando um pano para limpar-lhe o rosto, enquanto deixava o próprio à vista, com emoção relutante e querendo se externar. Ele segurou. “É isso. Não é porque ela adoeceu que eu vou abandonar não, uai”, finalizou.

Religioso, Juvenal recomendou que eu fosse embora com Deus. Saí de lá com vários “Nossa!” na cabeça. Primeiro, um silêncio maior do mundo tomou conta dos pensamentos, que àquela altura já gravitavam em slow motion. Depois, a sensação de que, um dia, todos nós poderemos ser Juvenal ou Francisca. Resta saber se teremos um ao outro e se vai existir amor tal qual. Tomara! “Fui ali ver o que é o amor e voltei”, disse ao chegar na redação do jornal.

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E, ah, a reportagem era sobre o Programa Mais Médicos e o retorno dos cubanos para Cuba (publicada no O POPULAR). Juvenal e Francisca ficaram muito próximos de um médico cubano, por causa dos constantes problemas de saúde.
Foto: Cristiano Borges.

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