Motoqueiros e as tais 80 horas

A porta já estava aberta tamanha era a ansiedade pela comida pedida há mais de uma hora. Segundos antes, o porteiro havia comunicado a chegada do entregador e, tão logo, fiz questão de iluminar o corredor escuro com a luz de dentro de casa. Do elevador, saiu Edmilson. Saiu zonzo, desajeitado, parecendo não enxergar direito. A primeira frase não foi nem de perto um Boa Noite ou um Como vai?. Foi: “Estou tremendo”. E comunicou aquilo em tom de desabafo, claramente esperando perguntas como O que houve? e Por que?. “Acabei de me livrar de dois assaltantes aqui na porta. Eles queriam a minha moto”, relatou.

O espanto no olhar, as mãos que mal conseguiam abrir o zíper da mochila para retirar a entrega, o batimento acelerado e visível do coração, as frases que não se encaixavam, tampouco eram concluídas com ponto final, tinham motivos para além do fato que acabara de acontecer. “Há uma semana, perdi meu carro. Roubaram… E agora isso…”, reticenciou. E emendou, em seguida, dizendo um Já era!, que não teria mais como recuperar o veículo, comprado a duras penas, noites e dias de trabalho. Por pouco, Edmilson se livrou de acumular mais um Já era! e não perder a moto que lhe garante o sustento de casa. Só não a levaram, porque ela desligou quando ele se assustou e perdeu o controle da direção. Os assaltantes seguiram caminho.

Ao ver Edmilson virando as costas e entrando no elevador para ir embora, imaginei esposa e filhos; imaginei rotina atribulada, horários que não se encaixam com os da família, os pequenos que ele não vê crescendo, a comida que ele engole ao invés de mastigar; imaginei o perigo do trânsito, seu companheiro diário e, porque não, o risco de morte à espreita; imaginei, ainda, todos os possíveis enfrentamentos, o desejo dele de mudança, de melhorar de vida, de ter uma outra opção, mas, como bem sabemos, não é fácil. Resta-lhe, assim como outros tantos, aceitar e continuar, driblando traumas da violência e marcas da ausência, seja dele próprio no convívio dos mais próximos ou de uma tal qualidade de vida que pouquíssimos sabem do que se trata.

Tudo isso aconteceu há mais de uma semana. Dias atrás, no entanto, Edmilson me veio à memória novamente, porque conheci Otávio, motorista que hoje ganha dinheiro dirigindo carros, mas que, no passado, ganhava dirigindo motos. Ele disse não ter o suficiente sequer para pagar o gás da cozinha, comprado fiado no mês passado. O salário recebido mal deu para custear a mensalidade do curso técnico de Análises Clínicas que a filha de 18 anos vem fazendo. O valor é de R$ 300. Como quem contava nos dedos da mão os trocados que lhe restara, ele fazia cálculos fáceis e de resultados breves, porque a conclusão é uma só: “Não vai dar. Vou voltar a dirigir moto”, afirmou. Embora resistente, por conhecer as circunstâncias, Otávio cogita voltar a ser Edmilson.

O salário mínimo que recebe hoje é quase metade do que um motoqueiro entregador chega a tirar por mês, segundo ele. A vida, porém, acaba. O tempo livre, quando existe, não coincide com o tempo livre dos demais. Além disso, os perigos e vulnerabilidades da profissão amedrontam o jovem pai de família, que só cursou até a quarta série do Ensino Fundamental. Tentando não se render ao passado esgotante, Otávio pensa em arrumar algum bico como garçom, pedreiro ou motorista particular nos finais de semana. Quem sabe até fazendo as tais 80 horas de trabalho semanais, conforme o defendido pelo presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade.

Só assim, talvez, para ter um ganho a mais e não comprometer o bem-estar da família. A vida própria, nesse caso, entraria para o hall dos no entantos e poréns do universo. Motoqueiros são só exemplos, mas o mesmo vale para faxineiros, porteiros, operários, pedreiros, padeiros, carpinteiros, recepcionistas, garçons, vendedores, atendentes, telefonistas etc. Realidades como a de Edmilson e Otávio me fazem ter a certeza de que existem inúmeras coisas para serem mudadas neste país antes de cogitarmos o inadmissível acirramento da lei trabalhista. Ou será que vamos continuar a decidir e alterar as coisas no Brasil de acordo com os interesses dos grandes, dos que já gozam vida boa?

Se assim for, os ricos continuarão ricos. Os detentores cada vez mais detentores. Edmilson continuará sendo assaltado, sofrendo com os traumas da violência, com o coração acelerado por medo, dinheiro contado tal qual o tempo, que mal lhe permite mastigar em paz, conviver com a família e viver de fato a vida, sem que isso seja apenas sobrevivência. Otávio não vai deixar de ser pobre, o gás pode até não ser comprado fiado mais, mas, para que isso aconteça, ele não terá a chance de experimentar o lado qualitativo da vida. Restarão os números: a quantidade de 80 horas na escala de trabalho, que o deixará sem tempo até para ultrapassar a barreira do Ensino Básico, caso queira retomar os estudos.

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