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Caso Cachoeira: O maior criminoso é o poder público

Galtiery Rodrigues

Está tudo errado. E Carlinhos Cachoeira, apesar de preferir assim e deitar e rolar nessas condições, evidenciou aos olhos mais atentos a crise política e de valores em que o poder público brasileiro está imerso. No início, lá no dia 29 de fevereiro deste ano, quando a Operação Monte Carlo foi deflagrada pela Polícia Federal, cheguei a admirar o poder de articulação do contraventor, que conseguiu adentrar nas mais diversas esferas, inclusive influenciar processos licitatórios em vários estados. No entanto, não foi tão difícil assim e nem demandou muito esforço da parte dele. O poder público está falido e vulnerável, reforçando a cada dia o status de corrompido e facilmente comprável. Foi isso que tornou possível as peripécias de Carlinhos e sua turma.

Ironicamente, o juiz auxiliar da 11ª Vara Criminal da Justiça Federal em Goiás, Paulo Augusto Moreira Lima, desmembrou o processo, colocando de um lado os agentes públicos envolvidos e aos quais não foi decretada prisão preventiva e, do outro, os integrantes diretos da quadrilha de Cachoeira, que foram detidos. Aos olhos do Código Penal, o que a trupe do bicheiro cometeu é mais grave. Já os servidores podem aguardar em liberdade o julgamento por terem permitido o desenvolvimento do esquema de exploração de jogos de azar, terem alertado a cada operação policial, terem distorcido o papel de funcionários pelo bem social, ignorado a ética, o compromisso com a função e terem se entorpecido de dinheiro propinado, vindo dos cantis e barris da “bebericação” de Cachoeira.

Ora, isso tudo não é crime digno de prisão e punição imediata? Simbolicamente, diria que tais atitudes são mais sérias que o que foi cometido pela quadrilha do contraventor, mas no Brasil elas beiram à cócega de tão comuns. Outro dia, vi pessoas na rua sendo perguntadas por um repórter sobre o que pensam a respeito dessa história toda. A maioria expressou ódio, a princípio surpreendente, em relação a Carlinhos Cachoeira. Muitos o xingaram de nomes vários, dizendo ser ele o culpado de tudo pela situação do País. Amigos, e os políticos que participaram, compactuaram, facilitaram? Não deviam ser eles para e pelo povo? Ainda existe muita ignorância em relação ao fato, mas é admirável, no sentido ruim da coisa, o engajamento despendido na direção contrária.

A evidência do descrédito do poder público é claro num dos principais argumentos para manter Carlinhos preso. Depois de vários habeas corpus protocolados pelos advogados, a ideia essencial de que, com ele solto, o esquema poderia ser todo rearmado, principalmente, com novas infiltrações nas esferas públicas, é a que fundamenta a recusa do pedido pelos desembargadores federais. Vejam bem a situação: a Justiça teme que agentes públicos voltem a ser coagidos por Cachoeira. A crise de valores é notória. Uma única pessoa é considerada perigosa por ser capaz de remontar esquema – esquema este que, segundo delegados, ainda persiste – de exploração de máquinas caça níqueis com a ajuda previsível de servidores do governo municipal, estadual, federal e até da Justiça, como foi comprovado pelas interceptações telefônicas.

Aqui, permito-me o uso das palavras do promotor do Ministério Público de Goiás (MP/GO), Fernando Krebs: “Existem os paraísos fiscais, e o Brasil é um paraíso criminal.” É assustadora a forma banal como os integrantes da quadrilha de Carlinhos veem as acusações feitas a eles, mas mais assustadora ainda é o comportamento indiferente de alguns políticos e servidores públicos, também acusados. O Brasil os faz e os fez assim. Sofrem do ranço da banalidade criminal, aquele, cujo fundamento é: crime pequeno não é crime. E infelizmente a Justiça hierarquiza os delitos, sem contar a permissividade da legislação. No entanto, vale lembrar, diante de tanta distração “oportuna” que crime é crime e quem comete é criminoso.

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Ney colocou o Canto da Primavera no bolso

Durante a passagem de som (foto tirada pelo celular).

Fui o primeiro a ver Ney em cima do palco em Pirenópolis. Eram 18h30, final de tarde, – lindo, por sinal -, quando ele surgiu com sua magreza e calvície lá no alto. Estavam no gramado do Campo das Cavalhadas algumas pessoas. Dentre elas, eu, Taynara Borges e Tainá Borela. Estas conversavam sobre coisas várias, enquanto eu estacionava por cinco segundos o olhar naquele homem até assegurar que de fato era ele. Foi rápida a percepção. Reconhecimento milimétrico, feito por um fã que só se deslocou até a charmosa Piri para ver o ídolo. Só não esperava que tudo começaria ali, tão cedo, tão perto e tão para mim. O show estava marcado para começar às 20h30. Fui andando em direção ao palco, as meninas vieram atrás. Olhos arregalados, sorrisos de ponta a ponta e um êxtase total que consumiu todos desde então e não se desgrudou até o fim da noite, quando ainda depois do show comentaríamos sobre aquela performance, segurança, presença, voz, destemor e interpretação.

Ney havia surgido no palco àquela hora para reconhecer o local e fazer a passagem de som. De repente ele começou a cantar e o arrepio nos consumiu desde o tornozelo, porque era tudo inacreditável. Foram três músicas e meia de Ney olhando nos nossos olhos, – piscando, inclusive – e interpretando como se estivesse no show, com figurino, luzes e mar de gente a frente, mas não. Havia pássaros no alto da estrutura de ferro: “Olha eles aí”, disse. Havia grama no chão do palco: “Parece que cavalgaram aqui em cima. Muita grama”, reclamou com humor. Havia a pouca distância da grade de proteção: “É só isso? Podia chegar mais para frente”. E havia ainda um vento que o incomodava, vindo da lateral: “Isso vai ficar aberto assim? Podia fechar”, peguntou ele a um dos organizadores. Vi isso tudo com atenção redobrada para guardar na mente cada detalhe e nunca mais esquecer. Não estava a trabalho. Não tinha bloco, nem caneta. Existia apenas uma admiração gigante que estava sendo ainda mais semeada.

É certo: os instantes de passagem de som deixaram clara a grandeza do artista, que fez um mini espetáculo – com prazer evidente, vale frisar – para aqueles gatos pingados que já aguardavam ansiosos no gramado do Campo. Mas não foi só isso. Ney é preocupado, é perfeccionista, é respeitoso com o público e sabe do que é capaz de fazer, assim como do magnetismo que possui. O palco é dele. Ele instiga quem o vê de coração aberto, disposto a deixar de lado o preconceito imediatista e errôneo. É arte verdadeira, limpa, pura e feita por um mestre das artes. Ele interpreta, canta, dança e caçoa daqueles que o veem como simples estereótipo. Não é. Trata-se de intérprete singular, com potencial, diria eu, o fã, inigualável neste País, para não dizer em boa parte do mundo. O show elucidou bem isso e fez até os menos conhecidos da arte de Matogrosso saírem boquiabertos e ensaiarem lágrimas diante de cada agudo e movimento.

Assim que começou o espetáculo, retornamos eu e Taynara Borges para a frente do palco. Vimos tudo de perto, novamente. Cantamos, pedimos mais, choramos e parei-me a decifrar um pouco do ídolo, que estava ali a poucos metros. A pergunta era: “O que se passa na cabeça de Ney?” As respostas são várias. Ele mais uma vez sorriu, iniciou rebolados, sentou no banquinho de apoio, único objeto colocado no palco, e, performático como sempre, vestido de terno, embora não menos icônico que as fantasias utilizadas na turnê anterior, não deixou a desejar. Fez o melhor show da minha vida e de muitos que saíram dali extasiados, sensação que eu já estava a experimentar desde às 18h30 e, ainda hoje, não quero perdê-la, pois persiste. Foram acometidos jovens, mulheres, adolescentes homens, pais de família, idosos, Pirenópolis inteira. Ele pegou o Canto da Primavera, colocou no bolso e se sobressaiu mais que tudo, bem ao seu jeito egocêntrico, tal qual Cazuza. Ao fim, restou-me um único pedido ao artista idoso de mais de 65: nunca morra, Ney. Viva sempre!

Só o contorno de luz, durante o show.

Essa versão de Nada Por Mim emocionou:

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O personagem

O Platinado em ação na Avenida 85. Temperatura de 35,4º C. Foto: Fábio Lima

 

Veio do Sul, de Ponta Grossa ele saiu

Deixou três de cinco filhos

Andou por tudo quanto é lado

E parou no coração do Brasil

 

Trouxe na mala muitas histórias

O desejo de constituir casa, família,

Sem ter de deixar as esquinas

“Quero continuar a acumular vitórias”

 

Rodou e veio para o lugar mais quente

Nos semáforos de segunda a sexta, lá está

Ama o que faz e nunca desiste

Prefere continuar a animar toda a gente

 

Exposto ao sol, o Platinado brilha

Tinta no corpo e sorriso no rosto

Contorce, faz poses, dança

Tudo ali a centímetros do asfalto, na ilha

 

“Aqui em baixo tem um vulcão”,

Reclama sorrindo do calor

E nem por isso deixa de lado a função

Com ajuda de água e amor no coração

 

Negro, 35, só fez o primeiro grau

Desde pequeno embrenhou no circo,

Que faliu depois de certo tempo

E ele continuou com o mesmo astral

 

Não pensou duas vezes e pegou o expresso

Malabarista, cospe fogo, estátua

Já fez de tudo nas esquinas

E hoje, como muito esforço, é sucesso!

 

 

O nome dele é Jefferson Luís Soares, natural do Paraná. Está há um ano e meio em Goiânia, onde pretende ficar. No caso dele, a história vale mais que o nome. São muitos detalhes e episódios interessantes. O Platinado, como é conhecido, ganha a vida nos semáforos. Geralmente, nos das avenidas Independência, T-7 e 85. Eu sempre o via pelas calçadas. Às vezes cedo, ás vezes na hora do almoço. Ele a pé e eu dentro do ônibus, indo trabalhar. Pude conhecer mais de perto, ontem, enquanto cumpria pauta sobre os trabalhadores que precisam ficar muito tempo expostos ao sol e, claro, ao calor de Goiânia que atingiu na última semana índices preocupantes.

Jefferson ganha até R$ 70 por dia, mas para isso tem de fazer poses de sol a sol, das 7 horas ás 19 horas. Nas ruas, ele trabalha de segunda a sexta-feira. Tem cinco filhos e só dois moram com ele. Os outros três vivem com as mães em Ponta Grossa (PR). Aos fins de semana, para conseguir o dinheiro suficiente para o sustento, ainda trabalha em eventos. E o telefone de contato é: (62) 8242-4536. Vale a pena, o cara é competente no que faz.

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O animalzinho vai virar um animalzão…

…e nem por isso merece perda de atenção.

Jabutis no Cetas do Ibama em Goiânia. Foto: André Costa

A lição do dia é: o jabutizinho vai virar um jabutizão. Dos animais que entram no Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Ibama em Goiás, somente 15% são entregues por vontade própria dos donos. Mas nesse caso, existe uma espécie que chama mais atenção. Quem nunca teve o seu, com certeza conhece alguém que já comprou um jabuti filhote para ser bicho de estimação e criar dentro de casa. Acontece que aquele animalzinho de um ano pode chegar a mais de 60 e se transformar em um animalzão.

 No Cetas, existem hoje 106 jabutis e 90% deles foram abandonados pelos donos depois que atingiram tamanho e fome de gente grande.  Eles de repente deixaram de ser “bonitinhos”, “fofos”, leves e fáceis de criar. E é aí que está o problema. Antes de adquirir um animal, pense bem e saiba que ele não é feito para proporcionar prazer momentâneo e depois ser deixado ao léu ou entregue para um criador qualquer. Se você se propõe a ter um animal de estimação é bom saber que isso implica em convivência e alteração da rotina do bicho, que deveria viver em liberdade e não preso em casa. Portanto, abandonar depois de passar certo tempo enclausurado, já grande e depois de perder a “graça” chega ser egoísta.

 Hoje, o coordenador do Cetas, Luiz Alfredo Lopes Baptista, considera o exemplo dos jabutis um grande problema. A população é grande e existe desde o menorzinho até o grandão. Além disso, não somente no que se refere à lotação do recinto, mas também ao comportamento das pessoas que insistem em adquirir animais sem se preocupar com o que pode ser acarretado, Luiz reflete e deseja que todos tenham o mínimo de consciência quando decidirem comprar um jabuti por aí. São bichos de longa expectativa de vida, dóceis, tranquilos e que comem, comem muito. Precisam de cuidado e atenção especial.

Vão virar baianos

Felizmente, os 106 animais da espécie que estão hoje no Cetas vão ter um destino feliz na próxima semana. Um conservacionista da Bahia, autorizado pelo Ibama, vai vir buscá-los e soltá-los na região oeste do estado, onde, por causa da expansão da fronteira agrícola, já não existem mais jabutis. Esta será a segunda vez que o tal criador vem  buscar animais em Goiás para realizar pesquisas e, quem sabe, recuperar a existência da espécie na Bahia. A primeira foi no início desse ano e 70 foram levados. Luiz Alfredo comemora a transferência, porque isso significa que o Cetas está cumprindo o seu papel, que é ressocializar os bichos em seus habitats e destiná-los corretamente para quem, enfim, possa dar-lhes o cuidado devido.

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“Eu perdi meu filho na escola”

Galtiery Rodrigues / Foto: Ronaldo Henrique

Edna Cândida: "“O fato de ter sido na escola é diferente. Era o último local que eu poderia imaginar."

Mãe pode até perdoar o assassino, mas jamais deixa de lutar por justiça. A dor de perder um filho é imensurável. O coração materno é o único capaz de quantificar o sofrimento. Edna chorou na quinta-feira da semana passada. Chorou e ficou pelo menos três dias chocada, dentro de casa e remoendo o assassinato das 12 crianças dentro da escola de Realengo, no Rio de Janeiro. O filho dela, Kérssio Silva Santos, na época com 17 anos, foi assassinado em 2008 com um tiro no peito e o local foi o mesmo da chacina carioca: um colégio. No caso, o Colégio Estadual Deputado José Luciano, no setor Rio Formoso, região sudoeste de Goiânia. Mais de dois anos depois, diferentemente do exemplo atual, o autor do crime não morreu, tampouco foi preso. Daniel Morais de Jesus continua solto e aguarda o trâmite do processo em liberdade.
Edna Cândida da Silva Santos tem 40 anos e trabalha como cobradora em um escritório jurídico. Mora junto da filha e do genro na mesma casa e no mesmo setor da escola, onde o filho morreu. “Não saio daqui. Não gosto nem de sair de casa. Fico com a sensação de estar deixando o Kérssio para trás. Aqui eu sinto ele.” Ela conta que até para visitar a mãe sente dificuldade. Viajar então, impossível. Prefere ficar quieta em casa. Ainda não está totalmente recuperada, e acredita que nunca ficará. Emociona-se fácil ao relembrar a história, o dia, o último contato, o sorriso e o barulho que ele fazia. A morte das crianças no Rio a fez sentir tudo de novo.
Na quinta-feira (7) saiu cedo para trabalhar e teve uma manhã atribulada, com pouco tempo para pensar em coisas que não fossem os afazeres e sequer acessar a internet ou prestar atenção na televisão. Na hora do almoço pôde respirar aliviada, mas durou pouco tal sensação. O descanso tão esperado cedeu lugar para o choro e o estado de choque imediato ao ver a bomba nos sites de notícia. O dia acabou ali e o fim de semana também. Lágrimas não cansavam de cair, lembranças insistiam em martelar a mente, o mal estar era intenso e a solidão, mesmo na companhia de vários, era onipresente. “Pensei que não fosse agüentar”.
Kérssio faleceu no dia 21 de outubro de 2008. Foi um dia atípico. Na noite anterior havia, na ajuda da mãe, da irmã e da noiva, feito a lista de convidados do próprio casamento, que seria em breve. Amanheceu chovendo, ele não precisou ser acordado pela mãe, como era de praxe. Levantou sozinho, arrumou-se e ficou na porta olhando para o tempo à espera do fim da chuva. Edna nunca o havia levado, muito menos de carro, e nesse dia foi preciso. Na correria, ela acabou esquecendo o celular em casa. Fez o trajeto, o deixou e foi trabalhar. Mais tarde, ela receberia a má notícia de uma das colegas de trabalho. Kérssio faleceu às 11h55.
Foi uma briga entre colegas de sala. Um era o amigo de infância Bruno Camilo Rezende, o outro era Daniel, seis anos mais velho que os garotos. O assassino fazia curso de segurança e já atuava na função. Ele andava armado e ia estudar, inclusive, trajando parte do uniforme de trabalho. Naquela manhã, ele se desentendeu com Bruno e a rixa acabou em discussão no estacionamento da escola. Kérssio entrou para apaziguar os ânimos e tirar o melhor amigo da confusão. Deu no que deu. Ficaram para trás o futuro casamento, a paixão por futebol, carros, o desejo de cursar Administração de Empresas e uma mãe que não teve coragem até hoje de entrar novamente na escola.

BULLYING PODE TAMBÉM TER SIDO A CAUSA DA MORTE
Além do local, a morte de Kérssio tem outras semelhanças em relação à chacina do Rio de Janeiro. Na época, o autor do crime, Daniel Morais, tinha 23 anos, a mesma idade de Wellington Menezes de Oliveira, assassino das 12 crianças em Realengo. Conforme relatos, no dia a dia da escola Daniel era calado, distante, introspectivo, mau humorado e se irritava fácil. Franzino e baixo, os colegas brincavam e sempre o perguntava como uma empresa de segurança era capaz de contratar alguém da estatura e da massa corpórea dele. No grupo dos que caçoavam estavam Eduardo e Bruno, os dois melhores amigos da vítima.
Kérssio era loiro, olhos claros, 1 metro e 89 centímetros de altura, popular, brincalhão, alegre e bem quisto por profissionais e colegas da escola, onde começou a estudar assim que ela foi inaugurada. Na quinta-feira seguinte, dois dias após o ocorrido, ele seria o personagem principal de uma peça de teatro. Papel este, que Daniel teria desejado ocupar, mas foi recusado pela professora responsável.
Uma semana antes, Eduardo, amigo de Kérssio, viajou com Daniel e outros rapazes para passar alguns dias em um rio no interior do Estado. Lá, meio a brincadeiras e chacotas costumeiras, o segurança teria declarado que em breve os colegas de escola passariam a respeitá-lo devidamente. A irmã da vítima, Kélita Cristiny Santos, 23 anos, acredita hoje, depois de se informar, investigar todas as evidências – ela saiu em busca de informações logo após a morte – e ver as motivações do caso do Rio de Janeiro, que Daniel apertou o gatilho com o mesmo pretexto de Wellington Menezes.

ASSASSINO SOLTO, MEDO E DESEJO DE JUSTIÇA
A maior angústia da mãe é saber que o assassino continua solto e o processo permanece sem perspectiva de ser concluído. O caso chegou a ser sentenciado e Daniel teria de cumprir pena de 16 anos em regime fechado. O advogado dele, no entanto, apresentou recurso às 17h do 15º dia após a decisão, ou seja, no último minuto do prazo para recorrer. O juiz Jesseir Coelho de Alcântara, pensando que não receberia nenhum informe, chegou a expedir o mandado de prisão e estava com ele sobre a mesa. A Polícia Civil já estava preparada para executar a captura. Todos foram surpreendidos. A família, mais ainda.
A mãe e a irmã não tomaram conhecimento do teor do documento. Só ficaram sabendo dias depois que Daniel aguardaria o resultado em liberdade, com a justificativa de ser réu primário, possuir endereço fixo na capital e ter atendido a todos os chamados da Justiça. “Tenho medo”, diz Edna. Ele estaria morando no mesmo setor, Residencial Rio Verde, próximo ao Rio Formoso. Em outubro, completam três anos. Se até lá nada for resolvido, a família pretende fazer mobilização em frente ao Fórum.
Edna não aguenta mais esperar e ter de acompanhar a evolução do processo pela internet ou todas as vezes que vai ao Tribunal de Justiça resolver alguma coisa do trabalho. Ela só clama por resolução e deseja ansiosamente cumprir uma promessa: a casa onde mora passou por reforma recentemente e o quarto de Kérssio, depois de dois anos intacto, foi modificado. Parte das roupas dele foi doada, parte não. As peças continuam guardadas e a mãe só irá se desvencilhar delas, quando obtiver resultado satisfatório e tiver a certeza de que a justiça foi feita.

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Um pouco de América Latina

Poucas coisas são tão ilustrativas e expressivas, como este discurso:
A SOLIDÃO DA AMÉRICA LATINA

(Gabril García Marques)

Antonio Pigafetta, navegador florentino que acompanhou Magalhães na primeira viagem em volta do mundo, escreveu, na ocasião de sua passagem pelas terras do sul de nossa América, um relato minuciosamente apurado, mas que na verdade parece mais um delírio fantasioso. 

Nessa viagem, ele diz que viu porcos com umbigos nas ancas, pássaros sem garras cujas fêmeas botavam os ovos nas costas de seus parceiros, e ainda outros, lembrando pelicanos deslinguados, com bicos feito colheres.

Ele disse ter visto uma criatura desengonçada, com cabeça e orelhas de mula, corpo de camelo e pernas de veado, que relinchava como cavalo. Descreveu como o primeiro nativo encontrado na Patagônia se olhou no espelho, e em seguida, o impassível gigante, perdeu a razão, aterrorizado com sua própria imagem.

Este curto e fascinante livro, que já naquela época continha as sementes de nossos atuais romances, é sem dúvida o mais pungente relato da realidade nossa daquele tempo.

Os cronistas das Índias nos deixou outros incontáveis relatos. Eldorado, nossa terra ilusória e tão avidamente procurada, apareceu em numerosos mapas durante anos, deslocando-se de lugar e de forma de acordo com a fantasia dos cartógrafos.

Em sua procura pela fonte da eterna juventude, o mítico Alvar Núñez Cabeza de Vaca explorou o norte do México por oito anos, numa iludida expedição cujos membros devoraram uns aos outros e, dos seiscentos que foram, apenas cinco voltaram.

Um dos muitos mistérios inimagináveis daquela época é o das onze mil mulas, cada uma carregando cinqüenta quilos de ouro, que um dia deixaram Cuzco para pagar o resgate de Atahualpa e nunca chegaram ao seu destino. Depois disso, no tempo das colônias, galinhas vendidas em Cartagena de Índias eram criadas em terrenos de aluviões e em suas moelas eram encontradas pequenas pepitas de ouro.

A cobiça de ouro de nossos fundadores nos perseguiu até recentemente. No fim do último século [XIX], uma missão alemã, indicada para estudar a construção de uma ferrovia inter-oceânica, através do istmo do Panamá, concluiu que o projeto era viável com uma condição: que os trilhos não fossem feitos com aço, que era raro na região, mas com ouro.

Nossa independência da dominação dos espanhóis não nos pôs fora do alcance da loucura. O general Antonio López de Santana, três vezes ditador do México, providenciou um magnífico funeral para a perna direita que ele perdera na chamada Guerra dos Pastéis. O general Gabriel García Moreno governou o Equador por 16 anos como um monarca absoluto; em seu velório, o corpo ficou sentado na cadeira presidencial, vestido com o uniforme completo e decorado com uma camada protetora de medalhas.

O general Maximiliano Hernández Martínez, o déspota teosófico de El Salvador, que teve 30 mil camponeses aniquilados num massacre selvagem, inventou um pêndulo para detectar veneno em sua comida, e mantinha as lâmpadas das ruas envolvidas em papel vermelho para vencer uma epidemia de escarlatina. A estátua do general Francisco Morazán, na praça principal de Tegucigalpa, é na verdade do marechal Ney, comprada num depósito de esculturas de segunda mão em Paris.

Onze anos atrás [1971], o chileno Pablo Neruda, um dos brilhantes poetas de nosso tempo, iluminou este público com suas palavras. Desde então, os europeus de boa vontade – e às vezes aqueles de má vontade também – têm sido arrebatados, com cada vez mais força, pelas novidades fantásticas da América Latina, esse reino sem fronteiras de homens alucinados e mulheres históricas, cuja infinita obstinação se confunde com a lenda.

Não temos tido sequer um minuto de sossego. Um prometéico presidente, entrincheirado em seu palácio em chamas, morreu lutando contra um exército inteiro, sozinho; e dois suspeitos acidentes de avião, ainda por explicar, abreviaram a vida de um grande presidente e a de um militar democrata que tinha ressuscitado a dignidade de seu povo.

Já ocorreram cinco guerras e dezessete golpes militares; surgiu um diabólico ditador que está realizando em nome de Deus o primeiro etnocídio da América Latina de nosso tempo. Nesse ínterim, 20 milhões de crianças latino-americanas morreram antes de completar um ano de vida – mais do que as que nasceram na Europa desde 1970.

Os desaparecidos pela repressão chegam a quase 220 mil. É como se ninguém soubesse onde foi parar a população inteira de Uppsala. Várias mulheres presas grávidas deram à luz nas prisões argentinas, e ainda ninguém sabe do paradeiro e da identidade de seus filhos, que foram furtivamente adotados ou enviados para orfanatos por ordem das autoridades militares.

Porque tentaram mudar esta situação, quase 200 mil homens e mulheres morreram em todo o continente, e mais de cem mil perderam suas vidas em três pequenos e malfadados países da América Central: Nicarágua, El Salvador e Guatemala. Se fosse nos Estados Unidos, seria o equivalente a um milhão e seiscentos mil mortes violentas em quatro anos.

Um milhão de pessoas abandonaram o Chile, um país com tradição de hospitalidade – ou seja, doze por cento da população. O Uruguai, pequenina nação de dois milhões e meio de habitantes, que se considerava o país mais civilizado do continente, perdeu para o exílio um em cada cinco de seus cidadãos.

Desde 1979, a guerra civil de El Salvador vem produzindo quase um refugiado a cada vinte minutos. O país que se poderia criar com todos os exilados e emigrantes forçados da América Latina teria uma população maior que a da Noruega.

Ouso dizer que é esta desproporcional realidade, e não apenas sua expressão literária, que mereceu a atenção da Academia Sueca de Letras. Uma realidade não de papel, mas que vive dentro de nós e determina cada instante de nossas incontáveis mortes de todos os dias, e que nutre uma fonte de criatividade insaciável, cheia de tristeza e beleza, da qual este errante e nostálgico colombiano não passa de mais um, escolhido pelo acaso.

Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e canalhas, todas as criaturas desta indomável realidade, temos pedido muito pouco da imaginação, porque nosso problema crucial tem sido a falta de meios concretos para tornar nossas vidas mais reais. Este, meus amigos, é o cerne da nossa solidão.

E se estas dificuldades, cuja essência compartilhamos, nos atrasa, é compreensível que os talentos racionais desta parte do mundo, exaltados na contemplação de sua própria cultura, se encontrem sem meios apropriados de nos interpretar.

É simplesmente natural que eles insistam em nos medir com o mesmo bastão que medem a si mesmos, se esquecendo de que as intempéries da vida não são as mesmas para todos, e que a busca pela nossa própria identidade é tão árdua e sangrenta para nós quanto foi para eles.

A interpretação de nossa realidade em cima de padrões que não são os nossos serve apenas para nos tornar ainda mais desconhecidos, ainda menos livres, ainda mais solitários.

A venerável Europa talvez pudesse ser mais perceptiva se tentasse nos ver em seu próprio passado. Se ela recordasse simplesmente que Londres levou 300 anos para construir seu primeiro muro, e mais 300 para ter um bispo; que Roma labutou numa penumbra de incertezas por 20 séculos, até que um rei etrusco a fizesse entrar para a história; e que a pacífica Suíça de hoje, que nos deleita com seus leves queijos e simpáticos relógios, derramou o sangue da Europa como soldados mercenários, no final do século XVI. Mesmo no alto da Renascença, 12 mil lansquenetes pagos pelo exército imperial saqueou e devastou Roma e trespassou oito mil de seus habitantes na espada.

Não quero incorporar as ilusões de Tonio Kröger, cujos sonhos de unir um casto norte a um sul apaixonado foram exaltados aqui, há 53 anos, por Thomas Mann. Mas realmente acredito que aqueles europeus esclarecidos que lutaram, inclusive aqui, por um lar mais justo e humano, pudesse nos ajudar muito melhor se reconsiderassem sua maneira der nos ver.

A solidariedade com nossos sonhos não vai nos fazer menos solitários, enquanto isso não for traduzido em atos concretos de apoio legítimo às pessoas que aceitam a ilusão de ter uma vida própria na divisão do mundo.

A América Latina não quer, nem tem qualquer razão para querer, ser massa de manobra sem vontade própria; nem é meramente um pensamento desejoso que sua busca por independência e originalidade deva se tornar uma aspiração do Ocidente. No entanto, a expansão marítima que estreitou essa distância entre nossas Américas e a Europa parece, ao contrário, ter acentuado nosso distanciamento cultural.

Por que a originalidade nos foi agraciada tão prontamente na literatura e tão desconfiadamente nos foi negada em nossas difíceis tentativas de mudanças sociais? Por que pensar que a justiça social perseguida pelos europeus progressistas aos seus próprios países não pode ser um objetivo da América Latina, com métodos diferentes em condições desiguais?

Não: as incomensuráveis violência e dor de nossa história são o resultado de antigas iniqüidades e amarguras caladas, e não uma conspiração tramada a três mil léguas de nossa casa.

Mas muitos líderes e intelectuais europeus têm pensado assim, com a infantilidade de seus antepassados que se esqueceram do proveitoso excesso de sua juventude, como se fosse impossível chegar a outro destino que não o de viver entre a cruz e a espada. Isto, meus amigos, é o tamanho exato de nossa solidão.

Apesar disso, à opressão, ao saque e abandono, respondemos com vida. Nem enchentes nem pragas, nem fome nem cataclismos, nem mesmo as eternas guerras, séculos após séculos, foram capazes de subjugar a persistente vantagem que a vida tem sobre a morte. Uma vantagem que cresce e acelera: todo ano, há 74 milhões de nascimentos a mais do que mortes, número o suficiente de novas vidas para multiplicar, a cada ano, a população de Nova York sete vezes.

A maioria desses nascimentos ocorre em países de menos recursos – incluindo, claro, os da América Latina. Contraditoriamente, os países mais prósperos se realizaram acumulando poderes de destruição, com força o bastante para aniquilar, num total de cem vezes, não apenas todos os seres humanos que já existiram até hoje, mas também todos os seres vivos que um dia respiraram neste planeta infeliz.

Um dia como hoje, meu mestre William Faulkner disse: “Eu me recuso a aceitar o fim da humanidade”. Não seria digno de mim estar num lugar em que ele esteve se eu não tivesse plena consciência de que a tragédia colossal que ele se recusou a reconhecer, 32 anos atrás, é agora, pela primeira vez desde o começo da humanidade, nada além de uma simples possibilidade científica.

Cara a cara com esta realidade horrenda que pode ter parecido uma mera utopia em toda a existência humana, nós, os inventores das fábulas, que acreditamos em qualquer coisa, nos sentimos inclinados a acreditar que ainda não é tarde demais para nos engajarmos na criação da utopia oposta.

Uma nova e avassaladora utopia da vida, onde ninguém será capaz de decidir como os outros morrerão, onde o amor provará que a verdade e a felicidade serão possíveis, e onde as raças condenadas a cem anos de solidão terão, finalmente e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra.

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É bem assim mesmo…

David Randall, jornalista britânico que escreveu a biografia de Januarius Aloysius Mac Gahan, um outro jornalista do século passado que conseguiu se destacar apesar das limitações, abriu o tal livro dizendo que todas as publicações do mundo deveriam conter a seguinte nota sobre o processo jornalístico:

“Este jornal e as centenas de milhares de palavras que contém foram produzidos em aproximadamente 15 horas por um grupo de seres humanos falíveis, que, desde Redações lotadas, tratam de averiguar o que ocorreu no mundo recorrendo a pessoas que, ás vezes, são refratárias a contá-lo e, outras vezes, decididamente opostas a fazê-lo.

Seu conteúdo está condicionado por uma série de valorações subjetivas realizadas pelos jornalistas e os chefes de Redação e influenciado pelo conhecimento que estes têm dos preconceitos do diretor e dos proprietários.

Algumas notícias aparecem sem o contexto essencial, já que este reduziria o dramatismo ou a coerência (do texto). Parte da linguagem empregada foi escolhida deliberadamente pelo seu impacto emocional e não por sua precisão.”

E aí Clóvis Rossi, jornalista com mais de 45 anos de atividade, que já fez de tudo na profissão, de rádio-escuta a editor-chefe, diz:

“Isso é desalentador? Não se considerarmos que Randall diz também que é possível superar tais limitações, ‘pois todos os dias alguém o faz em algum ponto do planeta’”.

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