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Enfim

Tentei, mais cedo

Recordar-me da sua voz.

Não consegui.

A estranheza me atordoa

O tão presente e marcante antes

Não mais é o que era.

Fez-se ausente

Até de lembrança e imaginação.

Isso é um sinal. Um sinal bom.

Eu me libertei.

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poemeto da vida (1)

as pessoas vão,
as músicas ficam
às vezes, é bom
às vezes, é foda.

The Perishers – Nothing Like You and I

 

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Santino!

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Os números têm de ser grandes. Só assim ele consegue ver as horas e acompanhar o passar dos dias, que, ao todo, já somam 83 anos. (Bem) Vividos e estufados de tanto causo acumulado. Quem o vê, não imagina. Essas mãos estão para sempre marcadas na História do Brasil. Ele vive lá, próximo à estrada férrea que corta a pequena Vianópolis, no interior goiano. Os mesmos olhos que acompanham os ponteiros do relógio veem, do sofá da sala, a imagem do trem passando emoldurada pela porta. O barulho ele ouve às vezes. Depende do volume e da distância. A imaginação de quem construiu boa parte dos anos o ajuda a desenhar na mente o que não entende ou não consegue ouvir. A vida vai assim, em tom de calma e de sorriso involuntário que se mostra fácil, até mesmo ao falar de enfrentamentos e dissabores. O ex-operário conta tudo mostrando os dentes, espremendo os olhos e franzindo a testa, formando feição de criança alegre, nascida em Sítio D’Abadia. “Tenho cimento dentro do ouvido, por isso tenho dificuldade para escutar”, explica Santino Alves de Souza. O pouco que consegue só é possível com a ajuda do aparelho de audição. Já mais próximo e com a pergunta do porquê sendo quase gritada, ele responde: “Trabalhei na construção de Brasília. Foi lá que isso aconteceu”. O nome dele aparece até em livro, o qual ele faz questão de mostrar. “Posso fazer um retrato do senhor?”, falo pausadamente e três tons acima. Ele se posiciona e é feito o registro. Santino!

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Motoqueiros e as tais 80 horas

A porta já estava aberta tamanha era a ansiedade pela comida pedida há mais de uma hora. Segundos antes, o porteiro havia comunicado a chegada do entregador e, tão logo, fiz questão de iluminar o corredor escuro com a luz de dentro de casa. Do elevador, saiu Edmilson. Saiu zonzo, desajeitado, parecendo não enxergar direito. A primeira frase não foi nem de perto um Boa Noite ou um Como vai?. Foi: “Estou tremendo”. E comunicou aquilo em tom de desabafo, claramente esperando perguntas como O que houve? e Por que?. “Acabei de me livrar de dois assaltantes aqui na porta. Eles queriam a minha moto”, relatou.

O espanto no olhar, as mãos que mal conseguiam abrir o zíper da mochila para retirar a entrega, o batimento acelerado e visível do coração, as frases que não se encaixavam, tampouco eram concluídas com ponto final, tinham motivos para além do fato que acabara de acontecer. “Há uma semana, perdi meu carro. Roubaram… E agora isso…”, reticenciou. E emendou, em seguida, dizendo um Já era!, que não teria mais como recuperar o veículo, comprado a duras penas, noites e dias de trabalho. Por pouco, Edmilson se livrou de acumular mais um Já era! e não perder a moto que lhe garante o sustento de casa. Só não a levaram, porque ela desligou quando ele se assustou e perdeu o controle da direção. Os assaltantes seguiram caminho.

Ao ver Edmilson virando as costas e entrando no elevador para ir embora, imaginei esposa e filhos; imaginei rotina atribulada, horários que não se encaixam com os da família, os pequenos que ele não vê crescendo, a comida que ele engole ao invés de mastigar; imaginei o perigo do trânsito, seu companheiro diário e, porque não, o risco de morte à espreita; imaginei, ainda, todos os possíveis enfrentamentos, o desejo dele de mudança, de melhorar de vida, de ter uma outra opção, mas, como bem sabemos, não é fácil. Resta-lhe, assim como outros tantos, aceitar e continuar, driblando traumas da violência e marcas da ausência, seja dele próprio no convívio dos mais próximos ou de uma tal qualidade de vida que pouquíssimos sabem do que se trata.

Tudo isso aconteceu há mais de uma semana. Dias atrás, no entanto, Edmilson me veio à memória novamente, porque conheci Otávio, motorista que hoje ganha dinheiro dirigindo carros, mas que, no passado, ganhava dirigindo motos. Ele disse não ter o suficiente sequer para pagar o gás da cozinha, comprado fiado no mês passado. O salário recebido mal deu para custear a mensalidade do curso técnico de Análises Clínicas que a filha de 18 anos vem fazendo. O valor é de R$ 300. Como quem contava nos dedos da mão os trocados que lhe restara, ele fazia cálculos fáceis e de resultados breves, porque a conclusão é uma só: “Não vai dar. Vou voltar a dirigir moto”, afirmou. Embora resistente, por conhecer as circunstâncias, Otávio cogita voltar a ser Edmilson.

O salário mínimo que recebe hoje é quase metade do que um motoqueiro entregador chega a tirar por mês, segundo ele. A vida, porém, acaba. O tempo livre, quando existe, não coincide com o tempo livre dos demais. Além disso, os perigos e vulnerabilidades da profissão amedrontam o jovem pai de família, que só cursou até a quarta série do Ensino Fundamental. Tentando não se render ao passado esgotante, Otávio pensa em arrumar algum bico como garçom, pedreiro ou motorista particular nos finais de semana. Quem sabe até fazendo as tais 80 horas de trabalho semanais, conforme o defendido pelo presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade.

Só assim, talvez, para ter um ganho a mais e não comprometer o bem-estar da família. A vida própria, nesse caso, entraria para o hall dos no entantos e poréns do universo. Motoqueiros são só exemplos, mas o mesmo vale para faxineiros, porteiros, operários, pedreiros, padeiros, carpinteiros, recepcionistas, garçons, vendedores, atendentes, telefonistas etc. Realidades como a de Edmilson e Otávio me fazem ter a certeza de que existem inúmeras coisas para serem mudadas neste país antes de cogitarmos o inadmissível acirramento da lei trabalhista. Ou será que vamos continuar a decidir e alterar as coisas no Brasil de acordo com os interesses dos grandes, dos que já gozam vida boa?

Se assim for, os ricos continuarão ricos. Os detentores cada vez mais detentores. Edmilson continuará sendo assaltado, sofrendo com os traumas da violência, com o coração acelerado por medo, dinheiro contado tal qual o tempo, que mal lhe permite mastigar em paz, conviver com a família e viver de fato a vida, sem que isso seja apenas sobrevivência. Otávio não vai deixar de ser pobre, o gás pode até não ser comprado fiado mais, mas, para que isso aconteça, ele não terá a chance de experimentar o lado qualitativo da vida. Restarão os números: a quantidade de 80 horas na escala de trabalho, que o deixará sem tempo até para ultrapassar a barreira do Ensino Básico, caso queira retomar os estudos.

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Juvenais, Franciscas e o amor

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Existem histórias que são obrigatórias. E esta é uma delas. “Deixa só eu vestir uma camisa e ver se ela não está pelada lá dentro”. Menos de um minuto de espera em frente à casa simples do Bairro Cidade Nova, em Aparecida de Goiânia, e ele gritou: “Pode entrar. Pode vir”. Não demorou 10 passos para eu conhecer Francisca, a senhora acamada, que já não fala, não anda, não senta, só se alimenta por sonda, que chora vez ou outra e que tem perto de si e por si um Juvenal. Há 47 anos.

Entrei pelo portão que dá acesso à garagem e à área de serviços, no fundo da casa. Faltou-me traquejo jornalístico para conter o choque diante do tão próximo, tão logo. Ela estava deitada em um sofá, meio coberta, meio não. Respirava com dificuldade e olhou assustada para aquele indivíduo desconhecido. Um “Nossa!” ficou entalado entre a minha língua e os dentes, querendo sair, mas contido por Juvenal, que já ajeitava tudo para me acomodar da melhor forma.

“Aceita café? Quer sentar? Vou pegar uma cadeira”, enquanto entrava, indo até a cozinha para tirar uma das cadeiras que estavam em cima da mesa para que ele pudesse limpar o chão, ainda úmido e cujo cheiro de produto de limpeza era possível sentir. Ele veio lá de dentro com duas. Uma para mim e outra para ele. Sentamos frente a frente, ele segurando a mão da esposa e relatando uma sucessão de acontecimentos que já não eram guardados pela minha memória, tampouco anotados pela caneta que deslizava pelas folhas do bloco de anotações. Mesmo rápida, ela era incapaz de acompanhar tudo aquilo.

A memória do senhor de 65 anos, porém, não falha. Diabético e aposentado por invalidez, em razão da artrose que lhe acometeu bem cedo, o ex-pedreiro contou nos dedos da mão esquerda, repetindo, em seguida, para que eu não perdesse nenhuma informação: “Ela sofreu três AVCs. Um dia 8 de março de 2014, outro dia 13 de agosto de 2014 e o último foi dia 9 de setembro de 2015”. Nesse instante, o olhar vagueou e o meu “Nossa!” finalmente saiu.

Piauiense, crescido no Maranhão, pai de 8 filhos (um morreu vítima de acidente de trânsito), mas todos espalhados pelo mundo ou tomados pelas ocupações cotidianas, Juvenal cultiva a fé solitária de que um dia Francisca voltará a andar. “Eu tenho certeza que isso vai acontecer. Eu rezo todo dia”, confia, hoje, o marido que já chegou a desacreditar na sobrevivência da esposa. No último AVC, ela ficou quatro meses internada na UTI do Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo).

“Temos de tocar a vida até o dia que Deus quiser”, disse em tom professoral, de quem aprendeu, aprende e, por isso, ensina. O tempo de Juvenal, cuja força vem reduzindo com os anos por causa dos problemas de saúde, esgota-se dentro de casa, totalmente voltado para Francisca. Às vezes, ele vai até o portão ver a rua, os moleques e os carros. De alegria resistente e sorriso mais ainda, ele conta tudo com a naturalidade de quem já foi imerso pela rotina de cuidados.

Em determinado momento da nossa conversa, entre perguntas e respostas, a mulher fez um som, como que tentando chamar a atenção. Ele observou as lágrimas. “Não, não chora, não. Não precisa chorar”, disse, pegando um pano para limpar-lhe o rosto, enquanto deixava o próprio à vista, com emoção relutante e querendo se externar. Ele segurou. “É isso. Não é porque ela adoeceu que eu vou abandonar não, uai”, finalizou.

Religioso, Juvenal recomendou que eu fosse embora com Deus. Saí de lá com vários “Nossa!” na cabeça. Primeiro, um silêncio maior do mundo tomou conta dos pensamentos, que àquela altura já gravitavam em slow motion. Depois, a sensação de que, um dia, todos nós poderemos ser Juvenal ou Francisca. Resta saber se teremos um ao outro e se vai existir amor tal qual. Tomara! “Fui ali ver o que é o amor e voltei”, disse ao chegar na redação do jornal.

__________

E, ah, a reportagem era sobre o Programa Mais Médicos e o retorno dos cubanos para Cuba (publicada no O POPULAR). Juvenal e Francisca ficaram muito próximos de um médico cubano, por causa dos constantes problemas de saúde.
Foto: Cristiano Borges.

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Surpresas (engraçadas) de um Desassossego

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Acordei hoje e dei de cara com o Desassossego me aguardando no sofá da sala. O olhar não era dos melhores, mas, aos poucos, ele foi se mostrando mais amigável. Parecia ter passado a noite ali, acordado e me esperando para conversar. Ele faz isso, às vezes. Já estou acostumado, mas hoje foi uma surpresa engraçada, como todas as outras que aconteceriam no decorrer do dia.

Peguei um copo d’água e, intrigado, comecei a recapitular quem o havia deixado naquele lugar. Melhor: quem o havia retirado da prateleira do quarto e levado para a sala. Teria essa pessoa o folheado novamente? Lido algumas de suas verdades? Sim, claro. E isso não só aconteceu na noite anterior como acabou acontecendo novamente assim que terminei de beber a água.

Sempre procuro trechos e vou lendo, lendo, lendo… A filosofia de Fernando Pessoa e suas teorias sobre a vida e as coisas são de esvaziar o nosso copo de certezas e enchê-lo, em seguida, com outras tantas. Dúvidas até. Hoje, no entanto, deparei-me com trechos que acentuaram a sensação de monotonia e mesmice. Decidi: preciso de um livro novo. E de poesia!

Tomei banho, almocei e inventei uma desculpa para caminhar e sair de casa. Fui ver uma amiga que mora aqui perto, mas, no caminho, de novo mesmice e horizontalidade. Aqueles passos marcados de quem passa pelas mesmas ruas a pé todos os dias e que, para serem mais iguais, só faltariam pisar os mesmos centímetros de chão. Diria que isso quase acontece.

Correspondendo a um rompante desassossegado, numa das ruas, decidi atravessar. Fui para o outro lado da calçada, e a mudança fez-se presente. A perspectiva e a visão de quem sai por aí atento aos recortes e nuances das ruas por gostar de fotografar, de repente, eram outras. Foi um choque feliz e reflexivo. Engraçado (novamente) como o simples fato de atravessar e ver as coisas do lado de lá é capaz de mudar tudo.

Conversa em dia e já no meio do caminho, entre a minha casa e o shopping onde fica a livraria, não pensei duas vezes ao me despedir da minha amiga. Terminei o trajeto e fui ver o que o acaso teria para sugerir naquelas prateleiras abarrotadas de livros. E houve encontros. Encontros que não estavam no roteiro, daqueles de fazer o coração bater acelerado e arrancar sorrisos. Um deles foi com Bethânia. O outro foi com um alguém. E, de novo, a graça!

Horas depois, deixei a livraria não só com um, mas com dois livros. Sim, de poesia! Os dois. No caminho, parei numa sorveteria, onde acumulei olhares de gentes acompanhadas que pouco sabem disfarçar na presença de alguém que divide a mesa consigo mesmo. Ah, vá! Terminei o sorvete e subi a rua, onde os passos me colocariam frente a frente com uma senhorinha desesperada.

Ela veio em minha direção, com as mãos dentro da bolsa, como que tentando retirar algo. Os fones de ouvido gritavam alguma música naquela hora e não consegui ouvir as primeiras palavras dela. Lembro que pensei: “Essa senhorinha não pode ser uma assaltante. Não mesmo!” Tirei os fones do ouvido e ela retirou da bolsa um Iphone. Um Iphone rosa. “Você, por acaso, conseguiria desligar isso daqui?”, disse. E consegui. “Bom garoto!”, saiu agradecida. Pensei comigo: “Sirvo para alguma coisa”.

Segui trajeto e, já quase na rua de casa, os dálmatas. Os três grandões que eu já tinha visto algumas vezes, cujo dono os leva para passear nos finais de tarde e eu sempre passo com medo do outro lado da rua para que eles não venham na minha direção. Desta vez, fiz o contrário. Atravessei para o lado em que eles estavam e passei no meio deles. Ora, pois, o que é encarar dálmatas para uma pessoa que já tinha feito a travessia mais cedo, que foi agraciado com encontros repentinos, que enfrentou olhares na sorveteria e conseguiu desligar o Iphone travado da senhorinha?

Os dálmatas deixaram eu passar a mão neles. ><

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Um par

Foi ensaiado para não falar de sentimentos, mas foi atraído pela quebra de protocolos. E viveu gritando. Um dia soube que esperar era por demais rotina, que se travestia de fracasso. Decidiu bailar sozinho até encontrar um par.

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