Texto sem fim do que está por vir

Aquela vontade de escrever que antes era rotina e há muito estava sumida apareceu há pouco. É hora de conversar comigo mesmo, sem aquele movimento de 2015, de quando faltou tempo para pensar e sobrou para agir, protagonizar, viver. Já não é mais momento de gozar a liberdade idealizada. A oportunidade passou, eu a agarrei e fui, mas agora preciso pensar sobre ela.

Algumas coisas mudaram. Muitas, aliás. Uma amiga próxima notou o amadurecimento no jeito de falar e nos pensamentos expressados naturalmente. Outras, no entanto, continuam da mesma forma. A mesma amiga notou também a minha velha excitação ao falar de paixão. O coração continua do mesmo jeito. Errante, medroso, mas com uma dose a mais de aventura e disposto a se arriscar.

Há 40 dias voltei para o mesmo lugar de onde eu saí em janeiro do ano passado. Se naquela ocasião, eu havia saído e deixado muitas coisas aqui, o mesmo ocorreu ao retornar, mas de maneira inversa. Voltei e deixei muita coisa lá. Talvez por isso o vínculo será difícil de quebrar, com chances reais de ser eterno. Hoje, olho-me no espelho e vejo alguém com mais amigos, mais histórias para contar e uma ambição menos nociva.

Ao mesmo tempo em que muitas certezas se mostraram nítidas, outras deixaram de existir, dando lugar a dúvidas importantes, que ainda não sei sequer como começar a responder. A crise com a escrita surgiu num ano de mais fotos do que textos. Passional de carteirinha, parece que consegui me ver sem o ofício que antes parecia impossível eu viver sem ou distante. Foi tranquilo. Não senti saudades, e isso me assustou. Tem assustado.

Esta aí a dúvida principal destes dias de readaptação. Tanto faz viver com ou sem o meu ofício original, aquele registrado na carteira de trabalho. Poderia ser qualquer coisa. Mas qualquer coisa o quê? Não sei. Esperar pode ser o melhor a ser feito mesmo. As consequências de um período sabático são mais sérias do que se pode imaginar. A mente não para, nem para o bem, nem para o mal.

A decisão de me dar férias de um ano foi difícil, mas não menos fácil do que todas as outras da minha vida. Ouvi depois de algumas pessoas, que sempre quiseram fazer o mesmo, elogios, relatos e observações em relação a minha confiança pessoal. “Admira-me o quanto você confia e vai. Simplesmente vai”, disse certa vez um conhecido no chat do Facebook. Na verdade, como disse, não teve tempo de pensar, apenas de agir.

O que acontece agora é que por mais lúdica que possamos tornar a nossa vida, nem sempre as coisas são liberdade idealizada e da maneira como queremos que seja. Temos de ceder, pisar o chão da realidade e refletir sobre. E esse processo de recomeço é muito complicado para não dizer doloroso. A calma vira sua melhor amiga, o respirar fundo seu fiel escudeiro e o dançar a melhor válvula de escape.

Fosse tão simples assim, tudo estaria maravilhoso, claro. Por vezes, é impossível ter calma, respirar fundo ou ter uma música legal para dançar. A realidade pode ser sonho, se assim você acreditar, mas é inevitável essa crendice não sucumbir à presença de obrigações, idade que avança, cobranças, pressões, contas para pagar, horários para cumprir, respostas que você tem de dar a si mesmo e a sua família.

A saída é tentar não se deixar abalar, mesmo que, assim como eu, você seja aquele perfil de pessoa que se permite um desespero esporádico e adora ouvir músicas tristes e melancólicas. Afinal, não dá para você bancar o forte sempre. Assumir que és humano e que precisa de ajuda foi uma das coisas que aprendi a aceitar em 2015. Isso nos gera liberdade também. O orgulho de nada serve.

É isso: o orgulho de nada serve. Por exemplo, agora: eu teria o maior orgulho se eu soubesse e conseguisse concluir este texto, mas já comecei a aceitar a ideia de que, tão rara, quando a vontade de escrever aparece, eu devo permitir e deixar rolar, mesmo que isso termine sem terminar. Sem ponto final. Aliás, é exatamente isto: o que aconteceu em 2015 ainda está acontecendo. Não teve fim.

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Por coragem!

“O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre no meio da tristeza! Só assim, de repente, na horinha em que se quer, de propósito – por coragem.”

(Guimarães Rosa)

 

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Temperamento

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Tem dia que
O humor está Gal Costa
Meu nome é Gal, e fim.
Dia que está Bethânia
Fera Ferida, vibe escorpiana.
Dia que está Chico, aquele da Holanda
Puro amor e poesia
e um dia depois está Caetano
Quase Cazuza, visceral.
Odara!
 
Dia ainda que está Capitu,
a de Machado, o de Assis. 
Olhos de ressaca e mistério.
Tem dia que está Tieta
A destemida do Agreste
e dia que não basta só Tieta.
É preciso de Hilda, do Furacão! 
As duas juntas. 
Tudo misturado. E aí é filme.
É Novela.

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fu…

As certezas, piadistas natas, saíram por aí a zombar da existência e decretando a própria liberdade.

Esquecimento

Florbela Espanca


Esse de quem eu era e era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.

Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei… tateio sombras… que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Descem em mim poentes de Novembro…
A sombra dos meus olhos, a escurecer…
Veste de roxo e negro os crisântemos…

E desse que era eu meu já me não lembro…
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos…!

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O erro…

…ultrapassou os superlativos possíveis.
E os negativos. Qualidades não existem mais
Elas se foram. Sobraram lágrimas e vergonha
E um arrependimento. Sem fim.

O dia amanheceu mais cinza do que o normal
Céu e asfalto pareciam um só. De mesmo tom.
Não pude ver o resto. O chão foi o horizonte 
E preferi assim. Acabaram-se os motivos.

Por que? 
Por que…?

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Sou

Não sou de bater martelo, apenas.
Sou de bater martelo e pintar
Mas bater martelo e pintar não bastam
Sou de bater martelo, pintar e calcular.

Calcular, bater martelo e pintar enjoam
É preciso mais do que isso
Sou de bater martelo, pintar, calcular e desenhar
Mas isso ainda não é o suficiente

Desenhar é terapia, calcular é jogo,
Pintar é diversão, bater martelo é virtude
Sou de bater martelo, pintar, calcular, desenhar e escrever
Escrever é tudo isso e etecétera.

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Alento

As músicas não se vão

Nem se perdem

Elas são, estão

E ficam à disposição

Um afago da vida

Da memória seletiva

Que dão tom e cor

A recortes de sensações

A foto estraga

Com o tempo

As companhias se vão

Com a idade

As pessoas se esquecem

Dos fatos

As músicas não

Elas caminham com a eternidade

Um alento da dor

Da alegria que se acaba

Elas vão com o vento

Ainda bem.

Elas vão e vêm.

______________

Obrigado, Bethânia, Caetano e Ney. Os três ídolos de uma vida e de histórias várias.

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